quinta-feira, 26 de maio de 2011

Valas.

Era uma batalha de trincheiras. As valas eram fundas, largas; uns cinco metros de altura por dez de largura. Não fossem a céu aberto, as chamariam de cavernas. Mas eles tinham cavernas também. Tocas. Ninhos. Buracos. Chame como preferir, mas eram cômodos escavados nas paredes das valas.

Aquele país esteve em guerra desde que nasceu. Ora, ele foi criado em meio e por causa de uma guerra! Os atuais moradores já nasceram ali, na guerra. Assim como seus pais e avós. Com o passar do tempo, a história foi se perdendo; e pouco tempo tinham eles para repassar ou ouvir as tais histórias. E assim sendo, foi. Foi, digo, o fim de toda a história do surgimento de um povo, de uma nação. Só restavam os documentos militares, servindo de material histórico; relatórios e mais relatórios. Afinal, qualquer pessoa que se dignasse a gastar o tempo que já não tinha escrevendo por prazer, não o faria para registrar ainda mais o caos que vivia. A escrita, um bom livro, é antes de qualquer outra coisa uma fuga da realidade.

Aqueles que não fugiam da realidade, estavam enfrentando-a com unhas e dentes. E armas. E balas. E granadas e capacetes e botas e fé. Muita fé.

Nesta guerra não havia nem certo nem errado. Bem e mal? No mundo real existem apenas aqueles mais ou menos certos. Ou então pontos de vista diferentes. É estar no lugar certo na hora certa para ser o certo. O inverso também é válido, se pretende ser o errado (vamos amenizar novamente: “menos certo” ao invés de “errado”).

Este país, também, não importava nem exportava pessoas. O que queriam estrangeiros ali? Interferir numa guerra de gerações? Injetar outras culturas que ali não cabiam? Outras tradições? Pois sim, enquanto as tradições dos outros eram festas, danças e feriados, as deles eram guerras! E por fim, todos que eram nativos deste país pareciam nascer com tal patriotismo hiperbólico que os impedia de sequer desejar sair dali. Nascer para a guerra, morrer por ela.

E este país sucumbiu com poucos anos de vida (algumas centenas), infelizmente; e digo infelizmente não por ser a favor da guerra. Digo infelizmente perante a perda de uma nação que poderia trazer muito à história como um todo. A guerra ali não era imposta. Todos queriam guerrear. “Se o que o índio quer é dançar, deixa o índio!” já dizia Silvério.

E o fim dessa nação de valas e casas-de-vala; de guerras e armas mil; de muitos relatórios e poucas ficções. Essa nação que não tinha tempo de repassar sua história, que fez sua história na guerra e que morreu antes de contribuir para a história, faleceu da seguinte maneira: um dia, as grandes potências, cansadas das histórias que ouviam sobre o tal país, tomaram sua decisão – como que sendo a voz divina da razão – e lançaram dois projéteis (um para cada lado da guerra, eu suponho) com um sei-lá-o-quê de nuclear ou atômico naquela nação, fazendo-a sumir do mapa, evaporar, literalmente (literalmente?).

E todo e qualquer fato ou relato ou evidência sobre aquele tal país virou, somente, estória.