quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre o amor.

Ele olhou para além da janela. Uma chuva fina despencava por todo o jardim e seguia molhando as ruas da cidade. Por um momento, vagou entre pensamentos variados. Viajou entre comerciais vistos na TV, acontecidos recentes na faculdade, o último trabalho pedido por um dos professores e sua namorada. Deteve-se nesse último, parando para lembrar cada detalhe que o fazia amar tão perdidamente aquela garota. Ela tinha um rosto lindo de belas expressões. Ele poderia dizer, sem parecer exagerado ou obsessivo, que decorara cada centímetro das mudanças que o rosto dela sofria a cada expressão facial. Era como um passatempo. Passara minutos, horas, conversando e admirando a beleza da garota e podia dizer claramente no que ela estava pensando ou no que iria falar somente observando as pequenas mudanças de sua fisionomia; seu sorriso era mais do que suficiente para alegrá-lo e extrair dele qualquer medo ou insegurança; seus cabelos, que alcançavam alguns centímetros abaixo dos ombros, ondulavam mutando-se em ângulos e formas variadas, numa caótica expressão de beleza; a cor de sua pele ele não poderia dizer: não a considerava escura nem pálida. Para ele, a pele dela não refletia espectro de cor alguma. Não era branca, nem preta. Não era morena nem mulata. Não era amarela, vermelha, azul ou rosa. Era perfeita. Uma cor sem classificação. Uma cor única, existente somente na pele de sua amada. Um tom de cor que o atraía, que o chamava para perto e o seduzia. Que o fazia ter vontade de abraçá-la; de beijá-la e tê-la em seus braços para sempre.

Ela não media mais que um metro e sessenta de altura. Não era gorda, não era magra. Se não fosse ser tão repetitivo e clichê, ele diria que ela era perfeita até nisso; seus lábios eram belos e finos; ao toque, eram doces. Seu beijo era suave; seus olhos eram um espetáculo á parte. Mais uma vez ele não conseguiria uma classificação comum de cor; ele acreditava que se um dia o Sol enfraquecesse e sua luminosidade e irradiação diminuíssem, tornando-o mais fraco e com menos brilho, ele alcançaria tonalidade, vigor e imponência existentes nos olhos de sua amada. Isso. Era exatamente isso: um par de pequenos sóis; uma dupla de diminutos, mas majestosos, astros; duas constelações compactadas em pequenos globos. Cada piscada, quando a luz do astro-rei incidia sobre eles, fazia-os brilhar de modo vivo e intenso, como estrelas brilhando numa colisão entre galáxias.

Após relembrar cada detalhe minuciosamente, decidiu vê-la. Uma vontade súbita que se abateu sobre seu corpo, sua alma. Não era algo possível de controlar. Simplesmente tinha essa vontade e teria de concretizá-la. Dirigiu-se então ao seu encontro. Flutuou como um espectro proveniente do limbo, sem força de vontade, por instinto. Sentia-se um títere, e o mestre das marionetes era seu amor por ela, carregando-o, por intermédio de invisíveis cordas, até seu encontro.

Sua mente se desviava novamente para pensamentos sobre ela. Era seu namorado, seu amante. Sempre o fora e sempre o será. Era isso que sabia, era isso que sentia... Era somente essa a única certeza que já teve em toda sua vida. Sentindo-se bem com esse pensamento, prosseguiu.

Passou por um grande portão de ferro. Adentrava no lar em que residia a mulher de sua vida. Tinha acesso livre. Afinal, ninguém podia impedi-lo de ver aquela que seria, com toda a certeza, sua futura esposa, mãe de seus filhos. Após o portão, seguiu por um caminho comprido, uma pequena estrada, cercada de arbustos. Algumas esculturas, moldadas em mármore, formavam o caminho estreito. Seguiu espectralmente seu caminho. Mas, a cada passo, algo de ruim preenchia seu coração. Uma lágrima brotou em seu olho esquerdo. Não era receio: tinha mais do que certeza que seria sempre dela e ela sempre sua. Não era medo de rejeição, medo de estar enganado sobre os sentimentos dela. Também possuía a certeza sobre tudo isso. Caminhou mais um pouco até lembrar. Havia alcançado seu destino. Ela estava á sua frente, mirando-o com olhos invisíveis, como um fantasma. Estava á sua frente e ele não a via. Tinha somente a certeza de que ela o observava. Mas não conseguia, não podia, já não era mais capaz de vê-la. A lágrima alcançava seu queixo quando suas pernas tremeram. Sua vontade louca, quase obsessiva, mais que sobrenatural – quase divina – de vê-la corroia seu interior, devorava-o interiormente, tal qual um potente ácido sobre uma chapa de ferro fundido; como o magma fervente sobre a vegetação aos pés da montanha de um vulcão. E sua vontade continuou sendo somente uma vontade, uma eterna e incansável vontade. E somente isso, uma vontade. Pois seus joelhos tremeram e suas pernas cederam, levando-o ao chão, sob o olhar dela. E ali, ajoelhado frente ao túmulo de sua amada, lendo seu epitáfio, que fora escrito pelas mesmas mãos que agora fincavam os dedos trêmulos na terra úmida, lembrou-se. Lembrou-se e percebeu que sua vontade seria eterna, pois não poderia revê-la. Nunca mais.