quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mãe dos monstros

No norte de um país qualquer, numa pequena cidade qualquer, dentro de um bar sujo e pobre cujo nome ignoro um velho senhor bebia calmamente. Sua paz foi perturbada quando um grupo de jovens adentrou o lugar fazendo barulho e criando baderna. Mas o senhor pareceu não se incomodar e até acenou levemente para um dos rapazes, que devolveu o cumprimento com um movimento de cabeça.

Várias horas se passaram até que o velho homem decidiu se levantar daquela cadeira podre e ir para a casa descansar os ossos. Quando passou paralelo à mesa onde o grupo de jovens estava, ouviu seu nome ser chamado.

– Senhor Albert! Pode vir aqui, por favor? – um dos rapazes, o que antes tinha lhe acenado, chamava-o animadamente.

Albert se aproximou vagarosamente, sem pressa alguma, como se fosse amigo do Tempo e o tivesse todo a sua disposição. Quando chegou à lateral da mesa, os cinco rapazes e seis moças o observavam avidamente. O rapaz que o chamou, de nome Julian, dirigiu novamente a palavra a ele.

– Senhor Albert, por que não nos conta uma história de seu tempo de exército? Sempre que pedimos você nos nega, mas hoje é aniversário do Hélio... Faça-o como se fosse um presente pra ele! – disse Julian num tom de voz agradável e respeitoso que sempre usava ao se dirigir ao velho Albert.

O homem olhou em direção ao rapaz chamado Hélio e o fitou por alguns segundos. Em seguida sentou-se numa cadeira vazia que Julian havia puxado pra ele e começou a falar.

– Vocês conhecem o caso conhecido como “Mãe dos Monstros”, não é? – e sua voz saiu como um rouco de enfermo – Mesmo que não fossem ainda nascidos na época, essa é uma história que é contada a todas as gerações atuais e é como um segredo de nossa pequena cidade.

Albert percebeu o olhar de interesse nos jovens mudos. Ele sabia que essa história nunca havia sido contada por ninguém que vivenciou o caso, alguém de dentro das forças armadas que atuou na resolução do caso. Estando satisfeito consigo mesmo por causar tal ansiedade nos jovens, ele começou o relato.

– Década de cinqüenta, mas pra nós isso era o mesmo que nada. A Segunda Guerra Mundial não nos afetou e, como se copiando esta, o início da Guerra Fria era como o início de nada para nós. Nossa cidade pequena e afastada nunca foi afetada de fato por causos exteriores.

Eu era jovem e confiante, inexperiente e impulsivo, mas tinha meus princípios e minha crença em Deus. A bíblia havia me ensinado muitas coisas e eu não ousava ir contra ela. Por isso mesmo, quando esse caso estourou, vi minha fé ser abalada e todas as minhas crenças se desfazerem. Monstros, como era possível? Monstros na década de cinqüenta, na nossa isolada cidade? Todos os noticiários, todos os canais, incessantemente mostrando os pequenos monstros que sobrevoavam e rastejavam por entre nossas ruas. Para que minhas crenças se sustentassem um pouco, dei a mim mesmo a certeza de que aquilo era um ato maligno de Belzebu. Um atrevimento do Diabo, que havia enviado seus pequenos demônios para trazer desgraça ao plano terreno. Eu sabia que estava errado sobre isso, mas convenci a mim mesmo do contrário.

Por azar ou sorte, até hoje não sei dizer, fui um dos convocados para o batalhão que deveria investigar e solucionar o caso. Na hora me mantive animado, como uma criança, sonhando em entrar num covil demoníaco e enfrentar o coisa-ruim com minhas próprias armas! – enquanto Albert falava os jovens pareciam cada vez mais excitados com o desenrolar da aventura e quase não piscavam, mirando o rosto do velho soldado.

“Subimos no helicóptero e voamos até o local que registraram como sendo a fonte de todos esses diabinhos, enquanto outro batalhão se preocupava em conter as criaturas já soltas que vagavam pela cidade. Nós pousamos perto de uma caverna da onde avistamos mais um pequeno demônio sair voando em direção à cidade. Descemos do helicóptero e dois de nós – eu e mais um – fomos destacados para sermos a primeira investida e averiguarmos a situação dento da gruta de onde vinham tais criaturas nefastas.

Andamos bastante ate chegarmos num lago subterrâneo. Alguns dos diabretes nadavam alegremente no lago e os executamos a tiros de rifle. Balas os feriram, então deduzimos que não eram demônios. Alienígenas talvez. Mutações genéticas, muito provavelmente. Todos lembravam pequenos bebês deformados com asas de inseto para os que voavam ou pequenos chifres, para os que rastejavam. Avistamos mais a frente o que deveriam ser duas pessoas, mas nos aproximamos com cautela por prevenção.

Ao chegar mais perto, percebemos que eram um homem e uma mulher. O homem parecia – e estava – morto. A mulher parecia estar em alguma espécie de transe ou coma, pois babava e espumava pela boca, possuía os olhos revirados e encontrava-se numa posição de parto. Antes que chegássemos perto o suficiente pra avaliar a situação da mulher, algo estranho aconteceu. A tal começou a ter convulsões e escutamos algum tipo de gemido – grunhido ou qualquer som visceral, infantil, mas inumano –, vindos dela. Ou achávamos que vinham dela. Uma pequena criatura, trinta centímetros, empurrou-se pra fora da vagina da mulher, se auto-parindo de modo assustador, nojento e maquiavélico. Ele rastejou por segundos antes de suas asas secarem o suficiente para levantar seu corpo gorduroso. O soldado que estava comigo, Andrei, não hesitou em matá-lo sem dizer uma palavra. Aproximamos-nos do corpo e começamos a discutir o que fazer.

Depois de quase uma hora de discussões sobre moralidade, sangue-frio e atitudes impulsivas, percebemos que a cada dez minutos a mulher dava à luz a um novo rebento maldito. Andrei queria matá-la sem pensar duas vezes. Nós havíamos checado as condições dela, estava viva; em coma, mas viva. Não importa o que tinha acontecido ali, tinha feito a mulher parir infinitamente os pequenos filhos de não-se-sabe-o-quê e o homem que a acompanhava provavelmente teria sido atacado e morto por alguma dessas criaturinhas.

Já havíamos decidido o que fazer, mas eu não possuía coragem. Acabou que discutimos mais um pouco e Andrei, finalmente, mirou a cabeça da mulher com seu fuzil. Imitando o movimento dele, meu fuzil também se moveu em direção à uma cabeça. Os soldados lá fora escutaram o tiro solitário e tentaram comunicação pelo rádio.




Albert se calou e fitou o rosto dos jovens. Levantou-se e começou a caminhar em direção á porta. Todos na mesa estavam extasiados e confusos, até que um deles falou exasperado:

“E o que aconteceu após isso? E a mulher? Parou de produzir demônios? E os que estavam soltos na cidade? Afinal, o que aconteceu no final de tudo?”

O velho senhor ficou calado alguns segundos e respondeu:

“Esses são acontecimentos irrelevantes, meu jovem. As únicas coisas que posso lhes acrescentar é que somente duas pessoas saíram vivas daquela caverna naquele dia. E segundo que se devem proteger todas as mães, pois são sagradas, não importando de quem ou do quê sejam.”