O braço realizou um arco no ar e atingiu-o. E o atingido alçou ar em direção ao solo. Era um vaso. Finamente produzido, de um zelo inacreditável. Aos leigos àquela arte, aparentava ser algo impossível de ser produzido, e que teria sido moldado por intervenção divina, de um estalo de dedos, ao invés de um minucioso e extenso trabalho manual. Fora fabricado centenas de anos atrás, antes de a tecnologia atingir a todos e tornar quase qualquer trabalho algo prático e mecânico.
Seu corpo possuía uma base mais fina, que se alargava conforme subia, e voltava a se afinar, afunilando-se num pescoço, antes de se abrir inteiramente e chegar ao final, à abertura. Era branco, tanto quanto as nuvens são brancas, tanto quanto uma cerâmica se permite ser branca. Perfeitamente liso onde necessário e em alto relevo nos desenhos que lhe enfeitavam. Cada grupo de desenhos era cercado por listras, uma acima e uma abaixo, dando a volta completa no corpo do vaso. E entre essas duas linhas, claras, flores desabrochavam-se em esplendor, tão reais quanto conseguiam sendo elas meros desenhos, garantindo aos seus usuários algo para observar ao ter aquele vaso em mãos. Flores rosáceas, em cor e forma.
Eram cinco grupos de desenhos, sendo três deles as flores dantes mencionadas. Os outros dois grupos pictóricos faziam referência a deidades de algum povo antigo que ignoro. Símbolos pagãos, sendo em variedade de três, portanto repetindo-se de três em três, até terminar uma volta completa no vaso. Estavam em dourado e prateado. A borda da abertura final do vaso, da boca, enfeitava-se com mais uma listra, desta vez escura.
E foi ao chão. Espalhou-se, em dezenas e dezenas de pedaços, pelo piso e pelo tapete. Algumas flores e símbolos sobreviveram inteiros, como que por milagre, mas a maior parte havia se dividido em tantos pedaços que seria impossível restaurá-lo, caso fosse a intenção. Uma das fatias assumiu um aspecto tão afiado que doía a vista ao tentar enxergar onde aquela ponta mortal fazia sua curva. Esse pedaço, se usado de modo errado, produziria facilmente uma cena de assassínio. A poeira residual espalhou-se pelo ar e preencheu a sala, mesmo que não fosse possível notá-la.
E assim acabou-se a vida de um vaso, tão branco quanto se poderia ser, de um mimo tão extremo por parte de seu criador, que haveria de ter levado duas vidas para concluí-lo, e mais alguns meses.
E para que não falem mal de mim, e digam-me que gastei meu tempo para descrever um vaso qualquer, digo-lhe agora:
Após descoberta traição o vaso foi ao chão, por movimento de um braço, dele, em momento de fúria. Pois aquele vaso fora presente dele para ela, representando aquele amor.