sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reflexões em uma aula de Física Geral.


Qual o destino daqueles que, por falta de termo melhor, chamo de inúteis? Eu sou um deles, e você?

Contam as lendas que se pode deixar de ser um inútil, mas datam de tempos esquecidos e portanto há poucas chances de comprová-las. Mas, contam elas que existe uma força mística nesse universo chamada “força de vontade”; e esta, então, serve para tal transfiguração que torna o comum inútil em um ser audaz e heróico, possuidor da famigerada “produtividade”. Muitos sonham e sonharam em desenvolver tal habilidade, poucos conseguiram.

Mas existem aqueles que ainda tentam constantemente; e não falo dos que tentam levianamente, que cansam a garganta disparando bravatas à respeito da busca, mas que conseguem enfrentar a vida de forma natural. Falo dos inúteis.

Nossa classe está num nível acima dos outros. Nossa busca é incessante, diária e agonizante.

A cada dia há um novo desafio, e tudo assusta. Mas se você também é um inútil, eu lhe compreendo; se nunca alcançarmos nada na vida, estaremos juntos no desespero. Um dia dominaremos o mundo.

(Imagine aqui uma pausa longa)

Acho engraçado como as pessoas buscam, até exageradamente, o sentido de identidade, de ser único. Mas que todos tudo podem. Você é diferente de mim em personalidade, além do físico e da forma em que vemos a vida. Mas ei!, se você consegue ser um, sei lá, astrofísico, eu consigo também, basta esforço.

É muito bonito de se falar, mas não me parece ser assim que a coisa funciona. Eu provavelmente não conseguiria jogar bem futebol nem se tentasse (e olha que já tive minha cota de tentativas); basquete, por outro lado, já me soa mais acessível. E tenho um braço bom, acho que dava pra baseball. Aquele rapazote ali que não quer fazer vestibular pode vir a ser um grande cozinheiro; aquele outro, que diz pretender e nunca faz, músico. Alguém disse ao professor de Física Geral I que ele podia ser um bom professor, bastava ele tentar e aprender a ser. E juro que se ele tivesse conseguido eu não estaria escrevendo este texto durante sua aula. Por sinal, sabiam que a primeira lei de Newton não precisava ter sido escrita? E a segunda lei então seria a primeira, e a terceira, segunda.

Um período inteiro de aulas e foi tudo o que aprendi dele. E pra surpresa de ninguém, isso de nada me servirá.

Então pense sempre algumas várias vezes antes de julgar alguém por este não conseguir aquele incrível feito inútil que você ou outrem definiram que era importante. Não existe “força de vontade”, existe somente vontade. Se você tem, você faz. Se não faz é porque não tem, meu querido, não se engane.

Mas veja só. Eu, que me considerei um inútil, produzi este texto. Talvez, no fim de tudo, eu não seja um tipo diferente de pessoa. Nem eu, nem você e também nem você aí atrás se escondendo.

Talvez sejamos somente preguiçosos e precisemos tentar mais. Não sei.

 O que importa é que se tudo der errado, ainda temos alguma chance de sobrevivência: basta virar professor de Física Geral.