quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Quando conheci o dragão.

Era uma tarde bucólica como quase qualquer outra de qualquer outro dia de qualquer outra semana ou época. E digo: bucólica não pelo mundo que me rodeava; o mundo não pára. Buzinas, gritos, freios, batidas, latidos... Mas meu corpo, num tédio tal que se assemelha a um campo vazio, consegue se tornar imune àquilo tudo enquanto afunda em longos devaneios de fim de tarde, ao som de alguma música qualquer de alguma banda qualquer previamente escolhida.

E foi assim que eu o encontrei, aquele dragão. Digo, na verdade eu somente o avistei, ao longe. Vi sua sombra por sobre o asfalto lá embaixo – que os apressados humanos não notaram em suas horas do rush pessoais – e então movi instintivamente a cabeça para cima; com um estalo senti o pescoço doer, e em minha preocupação em verificar alguma lesão, deixei passar o tal monstro no céu. Tive tempo, ao voltar desesperado os olhos ao céu novamente, de ver somente sua cauda robusta e córnea, a rasgar o ar em movimentos ofídicos.

Entristeci-me ao pensar que, talvez, havia perdido a chance única na vida de avistar uma criatura mitológica de tal fama. E foi ainda com esses pensamentos na cabeça que avistei num prédio próximo, quase na mesma altura da janela onde eu estava o lagarto a rastejar calmamente. Mais uma vez, observei, parecia ele estar invisível a outros que não eu. Ignorei.

Então me contive a observá-lo. À distância, ele me parecia um dragão-de-komodo com asas. Cinzento, robusto, pernas e patas grossas, cauda ainda mais grossa. Vez ou outra pude observar sua língua bifurcada a amostrar o ar ao redor. De fato, sem me prender a detalhes, era puramente um dragão-de-komodo com asas e uma cauda repleta de cornos.

Após algum tempo a observá-lo, foi a vez de ele me observar. Fixamos nossa visão um no outro, pelo que me pareceram horas e horas. Mesmo sem um único movimento por parte da criatura, eu senti certo medo, certa sensação fria a percorrer meu corpo completamente; um calafrio. Os olhos de fenda - sim, ele possuía pupilas de fenda - me liam completamente, e eu me senti preso, sabendo que qualquer movimento poderia resultar num ataque. De um salto, seu corpo avançou metade da distância que nos separava; num instante eterno, seu corpo voava livremente, ainda pelo impulso do salto, para em seguida cair pesadamente; e, antes que percorresse mais que um metro e meio em queda, suas asas compridas, largas e escamosas içaram seu corpo pesado para o ar novamente, avançando a outra metade que faltava para me alcançar.

E pousado nas paredes do prédio em que eu resido, com seu rosto grotesco a não mais que vinte centímetros do meu, começou a falar comigo. Iniciou uma conversa qualquer, onde ele era o único a falar, mas parecia demonstrar interesse no meu entendimento sobre o que me explicava. Não sei como pude definir qualquer tipo de expressão num rosto sáurio como aquele, mas assim o fiz. E as palavras que ele direcionou a mim, as propostas que fez, as paisagens que pintou e as músicas que descreveu, formou em minha mente certo nível de idéia que me trouxe até onde estou hoje em dia.


E assim havia me dito o dragão, em sua forma de komodo, naquele corpo que brilhava dourado a cada sinal de raio de sol, e naquela voz salivante que mostrava a língua a cada s ou z empregado; e foi assim que ele me disse, sobre um mundo onde eu poderia criar e descriar; fazer e desfazer. Dar a vida e tirá-la. Eu seria um deus supremo. Criaria meus próprios mundos, baseados ou não em minhas próprias experiências. Eu mesmo poderia participar da história daquele mundo, como herói ou vilão, como protagonista ou figurante. Qualquer escolha, qualquer opção, estaria tudo ao alcance de minhas palavras. E talvez, somente talvez, outros criadores, outros deuses como eu, teriam acesso a conhecer toda a história de meus mundos e criações – e eu das deles – e eu poderia ser reconhecido dentre os maiores; talvez como o maior dos maiores.


E foi aceitando esta proposta que subi nas costas do dragão e cavalguei nele em direção a algum lugar no limite da minha própria mente e imaginação.


Isso me aconteceu há uns três anos.

Daquele amor que ficou para trás.

Certa vez, perdido em pensamentos variados, vi-me num momento de fértil imaginação. Alcancei em minha mente, após tanto pensar, um fim. Quase como se inserido em minha própria cabeça, estava frente à escuridão inabitada de pensamentos, uma parede palpável de simples “nada”. Com pouco esforço empurrei tal parede, expandindo assim meu espaço mental e me permitindo livrar das lembranças anteriores: amores perdidos, amizades esquecidas, promessas descumpridas... Esses tipos de pensamentos que permeiam sua cabeça nestes momentos de rara solidão das pessoas e do mundo, inflando-o de incertezas sobre a beleza da vida.

Com um amplo espaço novo e ainda vazio, dei-me permissão para deixar de lado as lembranças anteriormente citadas e foquei-me em lembrar certa ocasião ocorrida a não muito tempo, em companhia de uma pessoa por quem nutro um sentimento especial.

Estávamos os dois seguindo viagem dentro do ônibus, ela rumo à casa de sua avó paterna e eu em direção à minha casa, alguns minutos de distância da anteriormente citada. Bateu-nos então, não mais que de repente, uma vontade inexplicável de abandonar o conforto do veículo e seguir o restante do caminho a pé, sob penoso sol. Para mim isto era algo incrivelmente bom, afinal ao irmos andando demoraríamos considerável tempo para chegar ao destino e isto me permitiria ter bastante tempo ao lado dela – coisa que muito me animava, se considerarmos que aquele tinha sido o último dia de aula no curso que freqüentávamos juntos e após aquele dia a certeza de um reencontro era praticamente uma incerteza.

A conversa durante todo o percurso foi agradável, como em todas as conversas que tínhamos. Era inegável que nossa amizade sempre fora algo especial, cultivado pouco a pouco e que, apesar dos percalços comuns a qualquer relação humana, somente crescia cada vez mais. Mas após a prazerosa caminhada, chegamos afinal à rua onde residia a então avó da garota que me acompanhava. Nosso passo reduziu quase imperceptivelmente, adiando o máximo possível a chegada ao destino à frente. Não tão imperceptível assim foi o rumo que a conversa tomou à inexistência. Um sentimento ruim atingiu os dois igualmente; a hora da separação inevitável parecia amarga. Numa conversa muda de olhares sutis e gestos quase invisíveis, tomou-se uma decisão silenciosa: não será agora. A idéia partiu dela, o que tornou tudo ainda mais animador para mim. Assim sendo, seguimos rumo ao Parque da Jaqueira, de onde já estávamos perto e onde poderíamos sentar calmamente para conversar mais.

Ao chegar lá sentamos num lugar qualquer, distanciado dos transeuntes em geral que transitavam pelo parque. Cercados pelo vivo verde da grande quantidade de árvores ao redor e da grama ao chão, retornamos à nossa conversa, tão animadamente quanto antes. Em certos pontos em que morria um assunto e antes que outro surgisse, os momentos de silêncio reconfortante, eu a olhava calmamente e observava cada detalhe de seu rosto, somente por capricho. Nesses momentos – e principalmente quando os olhares se encontravam naquele silêncio – eu perdia o controle de minhas emoções e o coração batia mais forte. Infelizmente era refreado por lembrar que o coração dela já possuía dono, e me mantinha calado, sem me repetir no ato de revelar meus sentimentos, que em outros momentos não havia resultado em nada, mesmo que em meu íntimo eu achasse – ou talvez tivesse a certeza – de que tudo poderia ser diferente se sua fidelidade já não estivesse prometida a outro.

E quando em raríssimos momentos eu conseguisse soltar a voz para expelir um indireto convite a ser eu então o seu atual amor, ela retomava seus repetidos esforços – quase tão repetidos quantos os atos de eu me declarar – de fazer tal assunto desaparecer, provavelmente não querendo preencher nosso último dia com um desagradável clima pós-rejeição. Eu não a julgo por isso, apesar de no momento em questão eu tê-lo feito, pois somente depois vim a perceber o que realmente importava.

Infelizmente o tempo me pareceu passar com extrema rapidez e eu o amaldiçoei por tal afronta contra minha pessoa. Chegou então o momento real da despedida, que não poderia ser novamente adiada por questões de horário, e foi nesse momento que, indo de volta em direção a avenida, tudo se clareou em minha mente. Foi um sentimento que me alegrou e eu não poderia descrevê-lo, mas foi naquele momento que eu percebi o quanto eu era importante para ela. Acima de todo o resto, dos sentimentos rejeitados e trancafiados, ter um ao outro ao lado como bons amigos era o que mais faria falta, mesmo que distância alguma pudesse destruir a amizade.

De todos os momentos que eu havia passado junto a ela, dos bons ao ruins; de todas as palavras que eu dirigi a ela, mesmo quando com raiva; de todas as vezes em que estivemos juntos e eu pude tocar a sua mão; e por fim, de todos os olhares trocados, do encontro de córneas, pupilas e íris, num sem-som diálogo de paixão, os mais importantes haviam sido estes, onde – sobrepondo-se as meus próprios devaneios e incertezas – tive a completa compreensão de que eu era importante para ela, da forma que fosse.

E nisso me mantive pensando enquanto alcançávamos de fato o local da despedida; enquanto nos abraçávamos pela última vez em muito tempo; e enquanto eu a olhava ir embora, já ao longe onde se tornara um mero ponto colorido e eu a seguia com o olhar até que não fosse mais possível vê-la.

E justamente por essa lembrança que tanto me alegra, por essa confiança de ser a ela algo notável, que este texto será enviado ao seu alcance, quase como uma mascarada carta de amor, onde posso afirmar com convicção que sou considerado, antes de qualquer outra coisa, um grande amigo; e, talvez, um amor que o destino impediu de se realizar.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quando eu conheci meu futuro.

Esta é uma história de quando eu vim do futuro ao meu próprio encontro; e ali, conhecendo meu eu de décadas à frente, eu contei a mim mesmo a história sobre meu dia final. E foi assim que ele (eu) contou sobre minha própria morte, nestas exatas palavras:

Cheguei ao inferno e caminhei por ele até encontrar o soberano do lugar. Diabo, Satã, Belzebu e outra infinidade de nomes ele possui. Chamo-o por Dragão.

E então o Dragão falou, em sua voz áspera e penetrante:

- O que faz aqui tão cedo, humano? Ansioso para me servir? Ou por azar ou imprudência caiu em alguma armadilha mundana?

E o jovem rapaz sem rosto que ali estava, eu no inferno, recostou-se na parede de pedra e olhou para cima; e após seu rosto inexistente assumir uma expressão que deveria ser um sorriso, proferiu na nossa voz calma e leve:

- Não, senhor. Simplesmente morri de amor.