Era uma tarde bucólica como quase qualquer outra de qualquer outro dia de qualquer outra semana ou época. E digo: bucólica não pelo mundo que me rodeava; o mundo não pára. Buzinas, gritos, freios, batidas, latidos... Mas meu corpo, num tédio tal que se assemelha a um campo vazio, consegue se tornar imune àquilo tudo enquanto afunda em longos devaneios de fim de tarde, ao som de alguma música qualquer de alguma banda qualquer previamente escolhida.
E foi assim que eu o encontrei, aquele dragão. Digo, na verdade eu somente o avistei, ao longe. Vi sua sombra por sobre o asfalto lá embaixo – que os apressados humanos não notaram em suas horas do rush pessoais – e então movi instintivamente a cabeça para cima; com um estalo senti o pescoço doer, e em minha preocupação em verificar alguma lesão, deixei passar o tal monstro no céu. Tive tempo, ao voltar desesperado os olhos ao céu novamente, de ver somente sua cauda robusta e córnea, a rasgar o ar em movimentos ofídicos.
Entristeci-me ao pensar que, talvez, havia perdido a chance única na vida de avistar uma criatura mitológica de tal fama. E foi ainda com esses pensamentos na cabeça que avistei num prédio próximo, quase na mesma altura da janela onde eu estava o lagarto a rastejar calmamente. Mais uma vez, observei, parecia ele estar invisível a outros que não eu. Ignorei.
Então me contive a observá-lo. À distância, ele me parecia um dragão-de-komodo com asas. Cinzento, robusto, pernas e patas grossas, cauda ainda mais grossa. Vez ou outra pude observar sua língua bifurcada a amostrar o ar ao redor. De fato, sem me prender a detalhes, era puramente um dragão-de-komodo com asas e uma cauda repleta de cornos.
Após algum tempo a observá-lo, foi a vez de ele me observar. Fixamos nossa visão um no outro, pelo que me pareceram horas e horas. Mesmo sem um único movimento por parte da criatura, eu senti certo medo, certa sensação fria a percorrer meu corpo completamente; um calafrio. Os olhos de fenda - sim, ele possuía pupilas de fenda - me liam completamente, e eu me senti preso, sabendo que qualquer movimento poderia resultar num ataque. De um salto, seu corpo avançou metade da distância que nos separava; num instante eterno, seu corpo voava livremente, ainda pelo impulso do salto, para em seguida cair pesadamente; e, antes que percorresse mais que um metro e meio em queda, suas asas compridas, largas e escamosas içaram seu corpo pesado para o ar novamente, avançando a outra metade que faltava para me alcançar.
E pousado nas paredes do prédio em que eu resido, com seu rosto grotesco a não mais que vinte centímetros do meu, começou a falar comigo. Iniciou uma conversa qualquer, onde ele era o único a falar, mas parecia demonstrar interesse no meu entendimento sobre o que me explicava. Não sei como pude definir qualquer tipo de expressão num rosto sáurio como aquele, mas assim o fiz. E as palavras que ele direcionou a mim, as propostas que fez, as paisagens que pintou e as músicas que descreveu, formou em minha mente certo nível de idéia que me trouxe até onde estou hoje em dia.
E assim havia me dito o dragão, em sua forma de komodo, naquele corpo que brilhava dourado a cada sinal de raio de sol, e naquela voz salivante que mostrava a língua a cada s ou z empregado; e foi assim que ele me disse, sobre um mundo onde eu poderia criar e descriar; fazer e desfazer. Dar a vida e tirá-la. Eu seria um deus supremo. Criaria meus próprios mundos, baseados ou não em minhas próprias experiências. Eu mesmo poderia participar da história daquele mundo, como herói ou vilão, como protagonista ou figurante. Qualquer escolha, qualquer opção, estaria tudo ao alcance de minhas palavras. E talvez, somente talvez, outros criadores, outros deuses como eu, teriam acesso a conhecer toda a história de meus mundos e criações – e eu das deles – e eu poderia ser reconhecido dentre os maiores; talvez como o maior dos maiores.
E foi aceitando esta proposta que subi nas costas do dragão e cavalguei nele em direção a algum lugar no limite da minha própria mente e imaginação.
Isso me aconteceu há uns três anos.