Ele não parece ser nenhum tipo de perdedor; é alto e de bom físico, ainda que não seja forte. Ela, apesar de eu não conseguir averiguar a beleza por culpa da distância, não surpreende à primeira vista, pois possui o corpo pouco escultural. O que faria então, ele com ela?
Destilo aqui um preconceito nato, desenvolvido ao longo dos anos, e que nem de longe ousa penetrar a primeira das camadas do que de fato define as relações humanas, ainda mais em se tratando das amorosas, sempre tão complexas, para não citar que desnecessariamente. E o que define, exatamente, o amar? Qual o preço a se pagar para ter alguém, e ter que esse alguém também lhe queira? Existem sempre os processos naturais; conhece-se um indivíduo e logo cria-se a amizade. Em alguns casos ela já vem pronta, à primeira vista, à primeira piada, ao primeiro abraço. E é o mesmo para o amor. Ou a paixão. Há quem diga que qualquer sentimento prematuro é paixão, e amor se desenvolve em conjunto, com o tempo; há quem fale do amor à primeira vista , que não há necessidade de tempo ou prévio conhecimento; afinal, há amores de todos os tipos, como de parentes em geral e amigos, e quem pode decidir por todo mundo que não foram estes de imediato?
Na verdade, não conheço ninguém que tenha mencionado essas anteriores análises, são só coisas que estão passando pela minha cabeça enquanto escrevo. Mas sabe como é, precisa-se dar um charme na escrita. O fato é, as pessoas tem medo das palavras. Dessas então, em especial. Por falta de capacidade de entender inicialmente os sentimentos alheios, assustam-se com o pronunciar de títulos e classificações para os abstratos. Mas são somente termos. Formas fracas e vazias de se tentar explicar algo sem norma e descrição. Não há porque temê-las; antes deve-se entendê-las como um termo geral, indicando um sentimento ou conjunto de sentimentos geral: o de se importar e querer se fazer presente o máximo possível.
E agora eu pareço já, certamente, um tolo ultrapassado de eras ultrapassadas, observando o espelho d'água agitar-se sob o peso das gotas, ouvindo o ritmado som de seu rebuliço, e tagarelando sobre o amor como o faria um infante. Vim aqui para ler, acabei escrevendo. E acabei expulso. Pela chuva. Não a culpo pois, de fato, a adoro. E sobreviveria e permaneceria sob seu derramar não fossem estas folhas em que escrevo tão frágeis; não fosse a tinta desta surrada caneta tão diluível, solúvel, escorrível pelo caminho aquático deixado pelas gotas. A cada avião que cruza o espaço aéreo longínquo, o desejo de que ele ceda da tal força mágica que o flutua; não por crueldade, e sim por necessidade de assistir um algo novo, um espectáculo inédito, de fogo. Para me tornar menos vil - se preferir - admita que nesta minha fantasia do desespero todos os tripulantes saiam miraculosamente vivos. No máximo, tomaram o maior susto de suas vidas, e medo não faz mal algum, constrói o caráter. Medo das palavras, entretanto, é um tanto mais perigoso...
Mas é melhor você parar de ler por aqui antes que eu retorne aos meus discursos desprovidos de razão e experiência sobre os sentimentos humanos.
E é melhor eu parar de escrever por aqui antes que eu perca mais algum minuto de aula.
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