sábado, 24 de dezembro de 2011

Yours Truly, 2095

Este Natal eu me presenteei com algo especial. Há uns cinco anos finalmente eles criaram isso, um modelo robótico humanóide programável para trabalhos domésticos ou profissionais, artificialmente realista, com pele sintética, inteligência artificial e voz. A voz continua sendo monótona e mecânica, ainda são frios ao toque e a inteligência é bastante limitada, mas ainda assim é um grande avanço. A aparência pode ser criada a partir do gosto do comprador, basta dar uma descrição. Aparência de alguém famoso, entretanto, custa mais caro. Alguns gostam de fazê-los ter aparência igual à sua, só pela graça da coisa, mas é possível também levar uma foto. No meu caso, levei um desenho que fiz a partir da foto. Afinal, esse meu talento serviu pra algo... Quando se leva uma foto, eles exigem certo nível de parentesco com a pessoa ou uma permissão assinada e reconhecida em cartório. Para evitar pervertidos, sabe? De qualquer forma, programei a minha como secretária e para serviços domésticos. Eu não poderia pedir “programe-a para me amar”, certo? É, infelizmente não.

Ela é o último modelo do mercado, tecnologia mais recente. Faz jus a toda a mitologia de robôs que nos foi passada e imaginada. Mas seu peito é frio e feito de metal. Ela não pode me amar. No lugar do coração ela tem um telefone móvel, para chamadas curtas.


Ela se foi há alguns anos, a garota da foto. Ela é loira, bonita, tem uma boca grande e olhos expressivos. Suas maçãs são rosadas e possui os dentes da frente um pouco grandes. Seu sorriso acendia meu mundo e eu sentia um frio na barriga sempre que olhava diretamente em seus grandes olhos castanhos. Eu a amei tanto... Ela também me amou, acho. Espero. Mas ela se foi. Eu sinto sua falta o tempo todo, e olho para o lado, e tenho uma réplica; pelo menos isso...


††††††††††††††††††††††††††††††


Já faz algum tempo que a possuo. Ela me serviu bastante tempo como empregada, mas eu não delego mais a ela esses trabalhos sujos. Mantenho-a em meu quarto, sempre de pé, guardando nosso antigo antro de amor. Sua cabeça me segue enquanto me movimento pelo quarto, e grava cada movimento meu. Eu poderia afirmar que vejo um sorriso em seu rosto sempre que entro, mas tenho certeza que é insanidade minha. Ela me observa indiferente, eu a me despir. Nem meu corpo nu nem meu membro despertam-lhe qualquer reação. É um robô, afinal, percebo a cada vez que isso ocorre.

Cada vez que a toco, parece que ela reage. Não sei se é instintivo de sua programação, não sei se ela está viva. Certa vez pedi para que deitasse ao meu lado na cama e “dormisse” juntamente comigo. Ela perguntou “É isto que você quer?”, e sua voz soou mecânica e doce. Respondi-lhe que sim e ela me obedeceu. Aos poucos fui descobrindo que ela podia atender a pedidos mais humanos do que eu imaginava. Contatei o fabricante e eles me informaram que em sua programação ela deve fazer quase qualquer coisa que eu pedir. Obviamente isso não se refere a qualquer sentimento. Mas um “sente-se” ou “deite aqui” é, para o construto metálico, como qualquer outra ordem, já que ele não possui capacidade de identificar as intenções de quem ordenou. Ela só possui algumas restrições, e qualquer ordem inapropriada será rejeitada. Após isso notei que eu estava sendo irracional. Em nenhum momento ela demonstrara qualquer atitude própria, somente respondeu às minhas ordens. Mas a verdade é que, ontem quando ela deitou ao meu lado e eu olhei em seus olhos, senti aquele frio na barriga. Será que estou enlouquecendo?


O Natal está cada vez mais próximo, e arrumamos a árvore juntos. Ela é bem mais organizada que eu; e, como ordena sua programação, ela me indicou o que fazer e como fazer. Foi divertido, e eu ri e sorri, e aí notei como estava sendo idiota, agindo assim. Decidi procurar um psicólogo no dia seguinte, e assim o fiz. Ele me disse que é até comum. Existem casos de pessoas que simplesmente se apaixonam pelos robôs, e no meu caso existe o agravante do trauma com minha namorada. O caso é que não vou poder resolver meu problema enquanto não superar meu trauma. Voltei para casa estressado, ansioso. Fiquei horas sentado na mesa, observando sua foto. E ela ali, atrás de mim, em plástico e metal, me observando, esperando ordens. Eu ouvi então “Eu gosto de você” voar pelo espaço vazio de minha cozinha. Olhei para trás assustado, mas somente havia ela lá; e a frase havia soado não como mecânica ou robótica, e sim suave e natural. Esperei achar um fantasma de minha amada, mas nada vi. Eu estava, então, insano.


Alguns dias depois, já melhor e livre nos últimos dias de meus acessos de loucura, qual não foi a surpresa ao acordar e vê-la ao meu lado, na cama? Assustei-me de início, mas em seguida achei a idéia reconfortante. Mas devia ter algo errado aí. Mais uma vez liguei para o fabricante. Obviamente não disse exatamente o que ela tinha feito, inventei algo sobre ela ter me trazido uma bebida sem ter sido ordenada ou algo assim. Ele me disse que a inteligência artificial dela, junto com sua programação básica, podiam facilmente fazer com que ela repetisse ações anteriores, baseada em ordens antigas, tentando prever o que seu amo deseja para melhor se adaptar ao convívio e abstê-lo de ter de se esforçar em repetir as ordens. Dei-me por convencido e ordenei-a a não mais ir para minha cama sem meu pedido. “É isto que você deseja?” e respondi “Sim.”.

Atualmente já passamos do Natal. Ela me acompanhou à ceia, meramente sentando, observando e me servindo. Estava vestida em vermelho e branco, roupa que veio de brinde da loja, já que a comprei nesta época. Estava bonita. Muito. Não lembrava minha amada, entretanto. Nestes feriados e nos fins de semana costumávamos nos manter só com roupas de baixo, e ela vestia uma camisa minha velha. E era ainda mais bonita assim.


Já se passaram três meses. Cansei das consultas ao psicólogo. Cansei da presença dela em minha mente, em minha casa, em minha cama, em meu quarto. Joguei suas fotos no lixo. Passei quase quatro dias inteiros somente deitado na cama, enquanto ela ficou na sala. Imagino se ela sentiu minha falta ou se está com raiva pela rejeição...

Depois de mais algumas horas, chamei-a a meu quarto. Pedi desculpas. Observei-a por algum tempo. Não tinha mais fotos, só restava ela para observar. Pedi-a para despir-se. Por baixo das roupas seu corpo se limitava a ter a pele sintética para se aproximar do humano. Não possuía mamilos ou qualquer detalhe genital. Não foram feitos pra isso, claro. Mas aquilo me excitava, ainda assim. Minha mente guardava o corpo nu de minha amada, e eu o sobrepunha sobre a imagem daquele à minha frente. Estranhamente, eu mantinha o rosto duro e inexorável da robô. Hesitei, sabendo que ela recusaria, mas ainda assim pedi. Pedi-a para ter em suas mãos meu órgão e excitá-lo, enquanto eu mesmo tirava minhas calças. Ela não respondeu, nem se moveu. Eu mesmo me arrependi da idiotice e me vesti novamente.

Antes que eu abotoasse as calças, ela perguntou mecânica como sempre “É isto que você deseja?”. Hesitei mais uma vez, mas confirmei balançando a cabeça. Seu cérebro computadorizado estava pronto para compreender movimentos, então ela se aproximou. Rapidamente minhas calças estavam ao chão, e suas mãos realizaram a ordem. Eram frias, e isso me excitou mais. Mas a verdade é que foi mais doloroso que prazeroso, devido à força que suas juntas biônicas possuem. Não demorei muito. Ela rapidamente tratou de limpar tudo, mesmo sem ser ordenada.

Após aquilo me senti sujo. Via-me como se fosse um pedófilo, necrófilo ou afim. Mais uma vez não consegui olhar para ela, e dessa vez não consegui ficar no mesmo local que ela. Viajei, passei algum tempo fora, num solar alugado. Deixei-a em casa, a cuidar dos afazeres da mesma.


††††††††††††††††††††††††††††††


Eu senti tanta falta dela quanto sentia de minha amada. Como isto é possível? Seria simplesmente por que ela é a imagem do meu amor e eu não tenho mais imagens desta? Será que nosso ato libidinoso me fez despertar sentimentos? Porque ela aceitou aquela ordem, afinal? Devia estar com defeito. Talvez eu deva trocá-la. Talvez ela esteja viva. Viva. Viva, reencarnada. E eu a abandonei sozinha, sem comida, sem água. Talvez ela esteja viva, nosso ato pútrido tenha sido um ato de amor, talvez ela me ame, talvez ela esteja viva, com fome e com sede. E com saudades de mim nesse momento. Devo voltar.

Devo?

...

Deveria, sim, para alimentá-la. Para tocar seu corpo frio, frio pois está morto. Minha amada morreu, mas ressuscitou neste corpo sintético e frio de morte. Devo voltar, sim.

E voltei. Dirigi pela estrada feito louco. O carro cheio de sua bebida e comida preferida. Suco de manga, sanduíche de filé de frango. Cheguei em casa algumas horas depois, e ela estava lá, sentada no sofá, esperando ordens. Pus comida sobre a mesa, ela não se importou. Mas ela olhou diretamente nos meus olhos, com os seus grandes e castanhos, e sua mão veio ao meu rosto. Ela me tocou, sua mão acariciou meu rosto. Ela parecia mais quente que o normal... Mas eu estava muito mais quente que o normal, até o clima estava mais quente que o normal. Eu não resisti e a beijei. Seus lábios não responderam, ficaram impassíveis. Minha língua passeou pelo vão aberto de sua boca, sem nada encontrar. Mas eu estava satisfeito por enquanto, eu estava com meu amor. Eu a abracei, e ela respondeu me abraçando também.


Depois de mais algum tempo, eu ainda amava, mas não podia nada fazer. Ela não era real. Ela era minha amada, mas presa num corpo incapaz de amar. O que eu devia fazer? Eu não agüentava mais. Eu a via todo dia, ela me obedecia cegamente, ela esboçava reações humanas ao me ver, ela me reconhecia mais do que somente como seu dono. O que eu deveria fazer? Eu preciso libertá-la desse corpo, para que ela possa viver comigo. Eu preciso. Eu preciso.

A marreta atingiu sua nuca e sua cabeça quase se desprendeu de seu pescoço. Ela foi ao chão e virou-se para me olhar. Seu rosto continuava inexpressivo. Ela não sente dor. O segundo golpe de marreta afundou sua cabeça e desfigurou seu rosto. Agora minha amada poderia me olhar com seu rosto real. Um de seus braços se esticou em minha direção, como se agonizasse por misericórdia. Arranquei-o fora com mais um golpe. O peito foi o próximo. Seus seios falsos de plástico foram destruídos cada um por sua vez, e a porta que guardava o telefone foi afundada. Seu corpo quase todo já carecia da pele sintética, só lhe restava um membro. E então eu vi, sangue. Não, não sangue. Não poderia ser sangue, certo? Com certeza era óleo. Cheiro de sangue. Usei toda minha força, provavelmente agravada pela insanidade, e abri a tampa de sua cavidade peitoral. Uma bizarra fiação avermelhada impedia a visão do que era guardado ali, o telefone. Arranquei-a com os dentes, aqueles fios. Meu rosto se enlameou de fluídos diversos, e alcancei o telefone. O coração. O telefone. O órgão era uma mistura bizarra dos dois: possuía uma tela plana touchscreen, com alguns dizeres e discagem rápida, e pulsava vermelho como se vivo. Tirei-o do gancho e o levei ao ouvido. Ouvi uma pulsação. Eu a conhecia, de tantas vezes que deitei sobre o tórax de minha amada, embalado em seus macios seios, eu ouvi e ouvi e ouvi o som de sua vida. E estava ouvindo ali novamente, no coração telefone. Devia ser. Só podia ser. E atrás do telefone vi algo, e o peguei. Era uma foto, uma das fotos que joguei fora, da minha amada. Como ela veio parar aqui? Ela, esse robô, deve ter pegado antes que eu jogasse fora. E porque o guardou para si? E porque ele estava tão vivo, e sangrante e pulsante? Devia estar com defeito, eu deveria ligar para o atendimento ao consumidor. Eu devia estar com defeito, eu devia ir para o psicólogo.


Era ela, não era? Noel existe e ele me deu um presente neste natal. Ele me deu ela. Eu quis libertá-la, eu abusei dela, eu a fiz me tocar e eu a toquei. Mas era ela, então eu fiz algo errado? Eu quis libertá-la, já disse. Mas eu a matei. Ou quase a matei. Eu a impedi de voltar à vida como corpo. Foi a foto, foi sua própria vontade, foi meu amor? Ou eu estou louco, ainda? Eu verdadeiramente não sei. Não sei. Eu sei que a amo, e acho que ela me ama. Seu peitoral continua ao meu lado, todo dia, na cama, e eu durmo com ele. Durmo, ouvindo-o bater ritmicamente. E eu o toco, e ele me toca. Não me sinto mais sujo; ele bate mais alegre e rapidamente quando eu o toco.

Ela me ama.


- Inspirado na música Yours Truly, 2095, da banda Electric Light Orchestra.

A Christmas Carol

O dia 24 de Dezembro se arrastava com preguiça ali, em Belstead. Todos estavam lentos e preguiçosos, com o frio da estação, até mesmo o tempo, que parecia dobrar-se para o frio tal qual ele fosse gravidade. O frio era tanto que diziam que nessa época do ano o Yeti – ou Abominável Homem das Neves, se preferirem – se escondia em sua caverna na montanha e hibernava como um urso. Dada a natureza da criatura, provavelmente isso ocorria após se alimentar de uma dezena de incautos alpinistas...
E na cidade não era diferente das montanhas, e todos saíam pouco de suas casas, mais para o essencial, e sempre tão agasalhados que poderiam se confundidos com o tal Yeti, se me permitem voltar a mencioná-lo. E mesmo dentro das casas, não fosse o conforto da lareira, muitos não agüentariam o frio cortante. Um destes que relaxavam ao crepitar do fogo na lareira era John, deitado em sua larga cama, coberto com várias camadas de grossos cobertores. Ao lado de sua cama, uma bandeja de prata reluzia, descansando alguns objetos afiados também prateados. Em seu rosto um sorriso fazia crer que estava relaxado e tranqüilo, mas sua mão direita movia-se ininterruptamente, como se brincasse com uma moeda entre os dedos, demonstrando ansiedade.

Fez-se a vez da meia-noite, e os olhos de John se abriram, enquanto seu corpo se levantava para fora das cobertas. O frio lhe feriu o corpo nu, fazendo-o se eriçar e contorcer. Caminhou até a bandeja, os pés quase se paralisando, e pegou um dos objetos, encostando-o em seguida na pele do abdômen para sentir o metal frio. Arrepiou-se, mas sorriu. Calçou as botas e pôs afinal uma roupa; e aí então que foi interrompido de sua rotina por um ruído qualquer que ouviu atrás de si. Ao virar-se avistou um ser translúcido, cinzento e ectoplásmico. Um fantasma, digamos. Eles se observaram por alguns segundos e, ao notar que John não reagiu para além daquilo, decidiu falar.
- John Matson. Já está de saída para sua rotina de crimes?
A voz da criatura era algo de sobrenatural com místico. Ela se vestia tal qual um padre, bispo ou qualquer outro tipo de orientador religioso, mas sem ser possível de fato notar uma referência explícita a uma crença específica. John então andou tranquilamente até a bandeja, perto de onde a criatura estava, e começou a guardar seus objetos por baixo de sua roupa, dentro da bota, preso no cinto e afins. Sem olhar diretamente, direcionou um golpe contra o fantasma, um soco leve, mas sua mão atravessou o corpo inexistente do ser. Nesse ponto John percebeu que não se tratava de um embuste, e sim de um fantasma real, então começou a sentir um pouco de medo, afinal. Virou-se para o fantasma, receoso de manter-se de guarda baixa contra aquilo. O fantasma então se pôs a falar novamente.
- Isso não adianta, John. Não sinto dor. Você não pode me tocar. Na verdade, o máximo que posso sentir nesse estado de minha “vida” é que sua mão me atravessou. E só. – O fantasma mantinha-se sério, sem expressar qualquer reação. Entretanto, deveria ter morrido velho, pois sua voz transmitia aquele tom de sabedoria comum aos de idade avançada. Vendo o estado de John, assustado, tornou a falar. – Bem, você fez certa fama, hein? Mesmo que não saibam quem você é de verdade, seus crimes ganharam certa notoriedade. Dizem que você nunca erra um golpe, e sempre mata com este. “Single Blow” ou “Mão Invisível”... Estes são só dois dos muitos codinomes que lhe deram nestes anos.
John não se permitia tremer. Nunca se permitira. O máximo de nervosismo que se deixava transmitir era sua mão irrequieta, e mesmo esta ele tentava parar agora, sem sucesso.
- Eu sou o Fantasma do Natal Passado, John. Vamos fazer uma viagem.
O fantasma esticou sua mão e tocou o pulso de John, e instantaneamente a casa de John não mais existia e eles estavam na rua. Esperando um frio intenso, John levou os braços ao redor do corpo, mas notou que não se sentia menos quente do que estava a poucos minutos, em sua casa. Olhou ao redor e lembrou-se da rua como uma próxima à sua casa, avistando mais adiante a si mesmo, alguns anos no passado. Era mais jovem, mais bonito, com cabelos mais compridos e corpo mais forte. Sentiu-me um pouco irritado por ser lembrado que até ele envelhecia e largava a juventude cada vez mais. Sua mente trabalhava de um modo bizarro no momento, tentando compreender a situação, mas sem sucesso. Viu seu eu do passado emboscar alguém e rapidamente sair de cena, deixando a vítima cair sozinha, repentinamente vertendo sangue, morrendo.
- Estratégia interessante a sua. Sai por aí com poucas roupas, para que alguém sinta pena e decida lhe ajudar. Pobres coitados... – o fantasma notou a expressão imutável de John, então continuou – Isso foi há sete anos. Depois dele você matou mais três nesse mesmo dia. Já parou pra pensar, John, já parou um segundo para pensar como isso é para eles? – e antes que o assassino tivesse a chance de responder – Que tal então sentir?
Nesse instante John foi ao chão. Sentiu uma fisgada repentina no estômago, e uma dilacerante dor se seguiu. Sentia como se uma faca, ou algum objeto menor, lhe cortasse ali, o suficiente para fazer seus intestinos saltarem. Ofegou, com a mão sobre o abdômen, quase lacrimejando e babando. Suas pernas estavam sem força para levantá-lo, e sentiu uma dor parecida se repetir no pescoço e novamente no abdômen. Depois de algum tempo, tendo quase desmaiado, conseguiu se levantar, sob olhar pesado do fantasma. Este nada disse, entretanto, e tocou-lhe novamente, levando-o de volta para sua casa. Ao lá chegar, um segundo fantasma já o esperava. Este se trajava de modo mais jovial e sorria para John. Mais uma vez o assassino teve seu braço tocado por um fantasma e viajou dali.
Eles estavam a poucas quadras da casa de John, num beco em que este último costumava visitar. Ali, o próprio John matava uma mulher acompanhada de uma criança. Um golpe largo fora o suficiente para acertar as duas em seu percurso.
- Olhaí, velhote. Isso é o que você pretende fazer hoje. Depois dessas duas, mais quatro morrerão. É, a colheita esse ano vai ser boa... Mas todas elas têm maridos, esposas e pais esperando por elas. Você já imaginou a dor deles?
Nesse momento John foi acometido por tal loucura, tal sangramento psíquico, que o impedia de raciocinar. Sua mente foi feita em pedaços sob tristeza, ódio, angústia, saudades, amargura, medo... Sentiu como se tivesse perdido a própria vida, mesmo estando vivo, e sentisse tanta falta de viver que não poderia conviver com isso. E como todo dano mental afeta diretamente a saúde física, ele mais uma vez foi ao chão, sobre os joelhos, e dessa vez vomitou e tossiu até a garganta sangrar; e seu corpo ferveu quarenta febres. Ainda de joelhos no chão, o fantasma o levou de volta para casa.
- É, velhote. Taí, você agüentaria se fosse com você? – o Fantasma do Natal Presente terminou a sentença com uma risada, o que fez John encará-lo de um modo que o assustaria, se estivesse vivo.
Ao se levantar, o terceiro fantasma, o Fantasma do Natal Futuro, já lhe levava em sua viagem. Este por sua vez cobria-se quase inteiramente, deixando somente uma mão pútrida à mostra. Chegaram a um local que John não conhecia. Talvez fosse ali naquela cidade mesmo, talvez fosse noutra, quem sabe. Este fantasma se limitou a apontar e nada falar. John assistiu o que parecia ser uma sessão de tortura. Ainda devia ser capaz de matar alguém com um ou dois golpes certeiros, mas aparentava ter se cansado disso, na velhice. Torturava algumas pessoas, das formas mais hediondas que podia. Matava alguns, para iniciar uma tortura psicológica nas outras vítimas; torturava todos, menos um, indicando-lhe que o melhor estava para o final, para o remanescente. Seqüestrava e abusava de parentes e relacionados de suas vítimas, ali na sua frente. Deixava algum escapar para em seguida capturá-lo com alguma armadilha assassina previamente montada, como um jogo.
Ao terminar de ver aquilo, o fantasma se adiantou à frente de John e abriu seu pesado casaco, mostrando consigo uma versão podre, velha e doente de John Matson, preso por correntes por algum inimigo, talvez alguma vingança de um vitimado, talvez uma prisão. Vendo seu futuro, como morreria em desgraça; aquele ser ali transmitia uma aura de desespero gigantesca, e John sentiu o medo que nunca sentira antes, nem ao enfrentar animais selvagens. E o medo, como todo medo real, medo do inimaginável e inconcebível, tomou-lhe e o quase tornou vegetativo, e uma parte dele se perdeu naquele momento. 

Já de volta a casa, os três fantasmas o observavam, enfileirados lado a lado. Ele se pôs frente a eles e perguntou “Por quê?”. O primeiro fantasma então respondeu.
- Você ainda tem chance de mudar. Pegue toda a dor que sentiu e mude. Nós não mudamos quando vivos, veja o que nos tornamos quando mortos: meros escravos.
John deu um riso curto. Em seguida seu braço cortou o ar rapidamente. Os fantasmas não viram o movimento, só viram onde a mão estacionou, com o braço já esticado; e nela, preso entre dois dedos, um bisturi. Notaram então aquela costumeira sensação de quando algo lhes atravessa; mas desta vez foi diferente. Cada um deles foi atravessado exatamente onde fora morto: no abdômen, no pescoço e no coração. Os três se contorceram, levando a mão transparente ao local do corte, mesmo que nada tivesse sido cortado; as lembranças do momento final de suas vidas vieram à tona naquele momento. Memórias que não surgiam há pelo menos trinta ou quarenta anos. Talvez mais. Eles tossiam, ofegavam e se contorciam, mesmo sem sentirem dor alguma, ainda espantados em como o assassino pôde definir como cada um deles fora morto, somente analisando sua expressão, seu modo de andar e agir. Surpresos em como ele acertou dois cortes e uma estocada em um movimento só, rápido demais até para olhos humanos. Quando se recuperavam do golpe mental, John já se encaminhava para a porta, guardando seu bisturi de volta na bota e a mão trêmula no bolso. Ele hesitou frente à porta, e gastou alguns segundos a falar.
- Sabe, acho engraçado vocês, “normais”. Vocês realmente acham que eu posso escolher qualquer coisa? – nesse momento ele se virou e recostou-se parte na parede, parte na porta, com o braço livre dobrado atrás do corpo. – Vocês acham que foi escolha minha me excitar ao cortar a carne de alguém? Eu que escolhi sentir tanto prazer com o cheiro de sangue quanto um drogado sente ao cheirar qualquer coisa que seja sua droga? Vocês acreditam que um dia acordei e escolhi que era um bom dia para matar?
Fazendo uma pausa, ele olhou para fora pela janela, observando a neve a cair e a forrar o chão com um belo branco-ovelha. Sorriu para a mãe-natureza e, sem voltar a olhar para os fantasmas, concluiu “Somos todos prisioneiros, amigos.” Em seguida abriu a porta e, quase já deixando os fantasmas para trás, adicionou:
- E agradeço. A viagem ao passado me ver relembrar toda a excitação daquele momento, minha primeira vez. Foi quase um orgasmo. A viagem do presente me deu garantias de que eu vou conseguir realizar o que eu queria para hoje. E o futuro me deu algumas idéias que eu não tinha tido até então, e esperar para ficar velho é um desperdício. Vou iniciá-las de pronto. – atravessou então a porta rumo ao gélido Dezembro, e avistou de imediato uma mulher, que mesmo de longe e com roupas pesadas, denunciava ser bela, carnuda na medida certa e jovem. Ele então colocou sua cabeça para dentro da casa uma última vez antes de fechar a porta e, observando os fantasmas já irritados e tristonhos, sorriu com os cabelos negros lhe varrendo a face.
- Feliz Natal.

Os 12 Dias de Natal

No primeiro dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza.

No segundo dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
E a cor de seus olhos.

No terceiro dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
E a melodia de sua voz.

No quarto dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
E o toque de sua pele.

No quinto dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
E o aroma de seu perfume.

No sexto dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
O aroma de seu perfume
E o sabor de seus lábios.

No sétimo dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
O aroma de seu perfume
O sabor de seus lábios
E as curvas de seus seios.

No oitavo dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
O aroma de seu perfume
O sabor de seus lábios
As curvas de seus seios
E o prazer de suas carícias.

No nono dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
O aroma de seu perfume
O sabor de seus lábios
As curvas de seus seios
O prazer de suas carícias
E os movimentos de seu corpo.

No décimo dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
O aroma de seu perfume
O sabor de seus lábios
As curvas de seus seios
O prazer de suas carícias
Os movimentos de seu corpo
E seu coração, pulsante.

No décimo primeiro dia de Natal,
meu verdadeiro amor me deu
A visão de sua beleza
A cor de seus olhos
A melodia de sua voz
O toque de sua pele
O aroma de seu perfume
O sabor de seus lábios
As curvas de seus seios
O prazer de suas carícias
Os movimentos de seu corpo
Seu coração, pulsante
E todo seu amor.

No décimo segundo dia de Natal,
meu verdadeiro amor nada me deu.
Fatigada, de tanto ceder,
Olhou-me nos olhos e pediu:

"Meu amor,
Meu verdadeiro amor,
Peço-lhe em troca somente
Também o teu amor, teu coração
Para me sustentar neste momento."

Mas nada pude fazer, então.
Há uns 13 dias atrás, dei todo o amor
Que porventura eu teria
Para uma outra,
Que se entregou pra mim
Toda de uma vez
Num só dia.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Hipotermia.

A noite já cansara de existir e dera espaço para o amanhecer fazer-se.
E ele ali, na janela, sentia aquela brisa fria da manhã a percorrer-lhe.
Não lembrava mais quão boa era aquela sensação. Frio.
Somente se lembrava da raiva, da ira incontrolável. Quente.

Aquele corpo ainda estava quente, o dela. O atentado era recente.
E na sua boca só restava aquele antigo gosto, de sangue, de carne.
E o frio agora o fazia raciocinar melhor. Porque aquilo ocorrera?
Porque havia de ter feito aquilo, não era ela seu cerne?

Fiz por amor, disse a si mesmo. Amor não existe, respondeu-se.
Fiz por insanidade, concluiu. Loucura é a desculpa dos covardes, respondeu-se.
Fiz porque ela me traiu, afirmou. Ela sequer lhe conhecia, respondeu-se.
Não fui eu que fiz, disse a si mesmo. Dessa vez sem resposta, emudeceu-se.

Não lembrava mais quão boa era aquela sensação. Frio.
Voltou à janela e observou o sol a nascer e a subir alto no céu.
Sentia-se quente novamente.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tentativa de se matar

Tentei me matar, certa vez. Convenci a mim mesmo que era um inútil. Disse-me ser patético e indesejado. Cultivei minhas próprias depressões e joguei a culpa nos mais próximos, em alguns desconhecidos e no destino. Este último, por sua vez, não fez questão de se mostrar benevolente: atacou-me com tudo que tinha, esfregando em minha face uma verdade que eu não quis aceitar. Persisti no erro e disse persistir meramente por ser inevitável. O destino, novamente injuriado, atuou como é de seu costume e me fez rever aquela verdade. Não aceitei. E foi me repetindo desse modo, que fui me matando, aos poucos, interiormente. A parte mais chata de se degradar no interior é que isto afeta o exterior. Não há como fugir disso.

Então eu sentei e escrevi. Oh, que alívio! Comprimir todos os problemas, anseios e angústias em uma porção de palavras e transfigurá-las em fantasias diversas. Viajei entre anjos e monstros, vampiros e dragões, heróis e Vilões e Deuses e...


As palavras, escritas, após certo tempo, começaram a não fazer mais sentido. Eram a fuga. Mas de que adianta somente fugir? Não vou morrer aos 22 (ao menos espero que não) para que eu pudesse simplesmente me esconder por uns cinco anos entre os textos e fingir que aquilo era meu amadurecimento. Estou aos 21, veja bem, e ainda não morri.

Então eu sentei e escrevi. Oh, que alívio! (mais uma vez). Dessa vez, juntei os problemas e os expus em letras, estilo próprio e divulgação (procurando por aceitação). Se antes o fiz para me iniciar, introduzindo-me; dessa vez fiz para continuar, desenvolvendo-me – mesmo que eu acreditasse, por um tempo, que já estava na conclusão e não precisaria ir além daquilo que alcançara.


Algumas coisas mudam, veja você. Desta terceira vez, deixei o destino descansar. Não lhe atribui falsas culpas. Joguei-as todas em mim, como deveria ser. Dessa vez não fugi. Mas não avancei nem enfrentei. Fiz-me estátua e esperei ser atingido. E fui atingido, algumas diversas vezes, pelo bom e pelo ruim. Não absorvi nenhum dos dois e me mantive estátua. Considero então que fiquei pior que antes, pois agora era mero objeto do destino (e dessa vez sem me referir a Ele), sem vontade, sem ação, deixando a vida passar.

Então eu sentei – agora –, e escrevi – este texto. Oh!; somente Oh!. O alívio não veio, e não veio porque não se fez necessário. Dessa vez, afinal, escrevi sem me valer de fantasias míticas ou místicas; expus-me sem procurar aceitação. Escrevi, então, por escrever. Escrevi de alma e coração (e um pouco de cérebro, porque esse meu não pára nem quando quero). Escrevi porque amadureci, talvez. Talvez tenha escrito, tão verdadeiramente, por ter alcançado algo de epifania pessoal.


E ao terminar este texto, com tanto de estilo próprio, amadurecimento, auto-aceitação; por estar aos 21 e não ter morrido; e por talvez ter alcançado, afinal, a conclusão, irei dormir torcendo para que, amanhã, eu não regrida nem um pouco, e viva mais do que vivi até hoje. Pois mesmo que eu não tente mais me matar, aos poucos por dentro, o Destino (seja ele Ele ou seja ele um conjunto de meras probabilidades manipuladas pelo caos) talvez queira, de fato, me matar aos 22.