A noite já cansara de existir e dera espaço para o amanhecer fazer-se.
E ele ali, na janela, sentia aquela brisa fria da manhã a percorrer-lhe.
Não lembrava mais quão boa era aquela sensação. Frio.
Somente se lembrava da raiva, da ira incontrolável. Quente.
Aquele corpo ainda estava quente, o dela. O atentado era recente.
E na sua boca só restava aquele antigo gosto, de sangue, de carne.
E o frio agora o fazia raciocinar melhor. Porque aquilo ocorrera?
Porque havia de ter feito aquilo, não era ela seu cerne?
Fiz por amor, disse a si mesmo. Amor não existe, respondeu-se.
Fiz por insanidade, concluiu. Loucura é a desculpa dos covardes, respondeu-se.
Fiz porque ela me traiu, afirmou. Ela sequer lhe conhecia, respondeu-se.
Não fui eu que fiz, disse a si mesmo. Dessa vez sem resposta, emudeceu-se.
Não lembrava mais quão boa era aquela sensação. Frio.
Voltou à janela e observou o sol a nascer e a subir alto no céu.
Sentia-se quente novamente.
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