O dia 24 de Dezembro se arrastava com preguiça ali, em Belstead. Todos estavam lentos e preguiçosos, com o frio da estação, até mesmo o tempo, que parecia dobrar-se para o frio tal qual ele fosse gravidade. O frio era tanto que diziam que nessa época do ano o Yeti – ou Abominável Homem das Neves, se preferirem – se escondia em sua caverna na montanha e hibernava como um urso. Dada a natureza da criatura, provavelmente isso ocorria após se alimentar de uma dezena de incautos alpinistas...
E na cidade não era diferente das montanhas, e todos saíam pouco de suas casas, mais para o essencial, e sempre tão agasalhados que poderiam se confundidos com o tal Yeti, se me permitem voltar a mencioná-lo. E mesmo dentro das casas, não fosse o conforto da lareira, muitos não agüentariam o frio cortante. Um destes que relaxavam ao crepitar do fogo na lareira era John, deitado em sua larga cama, coberto com várias camadas de grossos cobertores. Ao lado de sua cama, uma bandeja de prata reluzia, descansando alguns objetos afiados também prateados. Em seu rosto um sorriso fazia crer que estava relaxado e tranqüilo, mas sua mão direita movia-se ininterruptamente, como se brincasse com uma moeda entre os dedos, demonstrando ansiedade.
Fez-se a vez da meia-noite, e os olhos de John se abriram, enquanto seu corpo se levantava para fora das cobertas. O frio lhe feriu o corpo nu, fazendo-o se eriçar e contorcer. Caminhou até a bandeja, os pés quase se paralisando, e pegou um dos objetos, encostando-o em seguida na pele do abdômen para sentir o metal frio. Arrepiou-se, mas sorriu. Calçou as botas e pôs afinal uma roupa; e aí então que foi interrompido de sua rotina por um ruído qualquer que ouviu atrás de si. Ao virar-se avistou um ser translúcido, cinzento e ectoplásmico. Um fantasma, digamos. Eles se observaram por alguns segundos e, ao notar que John não reagiu para além daquilo, decidiu falar.
- John Matson. Já está de saída para sua rotina de crimes?
A voz da criatura era algo de sobrenatural com místico. Ela se vestia tal qual um padre, bispo ou qualquer outro tipo de orientador religioso, mas sem ser possível de fato notar uma referência explícita a uma crença específica. John então andou tranquilamente até a bandeja, perto de onde a criatura estava, e começou a guardar seus objetos por baixo de sua roupa, dentro da bota, preso no cinto e afins. Sem olhar diretamente, direcionou um golpe contra o fantasma, um soco leve, mas sua mão atravessou o corpo inexistente do ser. Nesse ponto John percebeu que não se tratava de um embuste, e sim de um fantasma real, então começou a sentir um pouco de medo, afinal. Virou-se para o fantasma, receoso de manter-se de guarda baixa contra aquilo. O fantasma então se pôs a falar novamente.
- Isso não adianta, John. Não sinto dor. Você não pode me tocar. Na verdade, o máximo que posso sentir nesse estado de minha “vida” é que sua mão me atravessou. E só. – O fantasma mantinha-se sério, sem expressar qualquer reação. Entretanto, deveria ter morrido velho, pois sua voz transmitia aquele tom de sabedoria comum aos de idade avançada. Vendo o estado de John, assustado, tornou a falar. – Bem, você fez certa fama, hein? Mesmo que não saibam quem você é de verdade, seus crimes ganharam certa notoriedade. Dizem que você nunca erra um golpe, e sempre mata com este. “Single Blow” ou “Mão Invisível”... Estes são só dois dos muitos codinomes que lhe deram nestes anos.
John não se permitia tremer. Nunca se permitira. O máximo de nervosismo que se deixava transmitir era sua mão irrequieta, e mesmo esta ele tentava parar agora, sem sucesso.
- Eu sou o Fantasma do Natal Passado, John. Vamos fazer uma viagem.
O fantasma esticou sua mão e tocou o pulso de John, e instantaneamente a casa de John não mais existia e eles estavam na rua. Esperando um frio intenso, John levou os braços ao redor do corpo, mas notou que não se sentia menos quente do que estava a poucos minutos, em sua casa. Olhou ao redor e lembrou-se da rua como uma próxima à sua casa, avistando mais adiante a si mesmo, alguns anos no passado. Era mais jovem, mais bonito, com cabelos mais compridos e corpo mais forte. Sentiu-me um pouco irritado por ser lembrado que até ele envelhecia e largava a juventude cada vez mais. Sua mente trabalhava de um modo bizarro no momento, tentando compreender a situação, mas sem sucesso. Viu seu eu do passado emboscar alguém e rapidamente sair de cena, deixando a vítima cair sozinha, repentinamente vertendo sangue, morrendo.
- Estratégia interessante a sua. Sai por aí com poucas roupas, para que alguém sinta pena e decida lhe ajudar. Pobres coitados... – o fantasma notou a expressão imutável de John, então continuou – Isso foi há sete anos. Depois dele você matou mais três nesse mesmo dia. Já parou pra pensar, John, já parou um segundo para pensar como isso é para eles? – e antes que o assassino tivesse a chance de responder – Que tal então sentir?
Nesse instante John foi ao chão. Sentiu uma fisgada repentina no estômago, e uma dilacerante dor se seguiu. Sentia como se uma faca, ou algum objeto menor, lhe cortasse ali, o suficiente para fazer seus intestinos saltarem. Ofegou, com a mão sobre o abdômen, quase lacrimejando e babando. Suas pernas estavam sem força para levantá-lo, e sentiu uma dor parecida se repetir no pescoço e novamente no abdômen. Depois de algum tempo, tendo quase desmaiado, conseguiu se levantar, sob olhar pesado do fantasma. Este nada disse, entretanto, e tocou-lhe novamente, levando-o de volta para sua casa. Ao lá chegar, um segundo fantasma já o esperava. Este se trajava de modo mais jovial e sorria para John. Mais uma vez o assassino teve seu braço tocado por um fantasma e viajou dali.
Eles estavam a poucas quadras da casa de John, num beco em que este último costumava visitar. Ali, o próprio John matava uma mulher acompanhada de uma criança. Um golpe largo fora o suficiente para acertar as duas em seu percurso.
- Olhaí, velhote. Isso é o que você pretende fazer hoje. Depois dessas duas, mais quatro morrerão. É, a colheita esse ano vai ser boa... Mas todas elas têm maridos, esposas e pais esperando por elas. Você já imaginou a dor deles?
Nesse momento John foi acometido por tal loucura, tal sangramento psíquico, que o impedia de raciocinar. Sua mente foi feita em pedaços sob tristeza, ódio, angústia, saudades, amargura, medo... Sentiu como se tivesse perdido a própria vida, mesmo estando vivo, e sentisse tanta falta de viver que não poderia conviver com isso. E como todo dano mental afeta diretamente a saúde física, ele mais uma vez foi ao chão, sobre os joelhos, e dessa vez vomitou e tossiu até a garganta sangrar; e seu corpo ferveu quarenta febres. Ainda de joelhos no chão, o fantasma o levou de volta para casa.
- É, velhote. Taí, você agüentaria se fosse com você? – o Fantasma do Natal Presente terminou a sentença com uma risada, o que fez John encará-lo de um modo que o assustaria, se estivesse vivo.
Ao se levantar, o terceiro fantasma, o Fantasma do Natal Futuro, já lhe levava em sua viagem. Este por sua vez cobria-se quase inteiramente, deixando somente uma mão pútrida à mostra. Chegaram a um local que John não conhecia. Talvez fosse ali naquela cidade mesmo, talvez fosse noutra, quem sabe. Este fantasma se limitou a apontar e nada falar. John assistiu o que parecia ser uma sessão de tortura. Ainda devia ser capaz de matar alguém com um ou dois golpes certeiros, mas aparentava ter se cansado disso, na velhice. Torturava algumas pessoas, das formas mais hediondas que podia. Matava alguns, para iniciar uma tortura psicológica nas outras vítimas; torturava todos, menos um, indicando-lhe que o melhor estava para o final, para o remanescente. Seqüestrava e abusava de parentes e relacionados de suas vítimas, ali na sua frente. Deixava algum escapar para em seguida capturá-lo com alguma armadilha assassina previamente montada, como um jogo.
Ao terminar de ver aquilo, o fantasma se adiantou à frente de John e abriu seu pesado casaco, mostrando consigo uma versão podre, velha e doente de John Matson, preso por correntes por algum inimigo, talvez alguma vingança de um vitimado, talvez uma prisão. Vendo seu futuro, como morreria em desgraça; aquele ser ali transmitia uma aura de desespero gigantesca, e John sentiu o medo que nunca sentira antes, nem ao enfrentar animais selvagens. E o medo, como todo medo real, medo do inimaginável e inconcebível, tomou-lhe e o quase tornou vegetativo, e uma parte dele se perdeu naquele momento.
Já de volta a casa, os três fantasmas o observavam, enfileirados lado a lado. Ele se pôs frente a eles e perguntou “Por quê?”. O primeiro fantasma então respondeu.
- Você ainda tem chance de mudar. Pegue toda a dor que sentiu e mude. Nós não mudamos quando vivos, veja o que nos tornamos quando mortos: meros escravos.
John deu um riso curto. Em seguida seu braço cortou o ar rapidamente. Os fantasmas não viram o movimento, só viram onde a mão estacionou, com o braço já esticado; e nela, preso entre dois dedos, um bisturi. Notaram então aquela costumeira sensação de quando algo lhes atravessa; mas desta vez foi diferente. Cada um deles foi atravessado exatamente onde fora morto: no abdômen, no pescoço e no coração. Os três se contorceram, levando a mão transparente ao local do corte, mesmo que nada tivesse sido cortado; as lembranças do momento final de suas vidas vieram à tona naquele momento. Memórias que não surgiam há pelo menos trinta ou quarenta anos. Talvez mais. Eles tossiam, ofegavam e se contorciam, mesmo sem sentirem dor alguma, ainda espantados em como o assassino pôde definir como cada um deles fora morto, somente analisando sua expressão, seu modo de andar e agir. Surpresos em como ele acertou dois cortes e uma estocada em um movimento só, rápido demais até para olhos humanos. Quando se recuperavam do golpe mental, John já se encaminhava para a porta, guardando seu bisturi de volta na bota e a mão trêmula no bolso. Ele hesitou frente à porta, e gastou alguns segundos a falar.
- Sabe, acho engraçado vocês, “normais”. Vocês realmente acham que eu posso escolher qualquer coisa? – nesse momento ele se virou e recostou-se parte na parede, parte na porta, com o braço livre dobrado atrás do corpo. – Vocês acham que foi escolha minha me excitar ao cortar a carne de alguém? Eu que escolhi sentir tanto prazer com o cheiro de sangue quanto um drogado sente ao cheirar qualquer coisa que seja sua droga? Vocês acreditam que um dia acordei e escolhi que era um bom dia para matar?
Fazendo uma pausa, ele olhou para fora pela janela, observando a neve a cair e a forrar o chão com um belo branco-ovelha. Sorriu para a mãe-natureza e, sem voltar a olhar para os fantasmas, concluiu “Somos todos prisioneiros, amigos.” Em seguida abriu a porta e, quase já deixando os fantasmas para trás, adicionou:
- E agradeço. A viagem ao passado me ver relembrar toda a excitação daquele momento, minha primeira vez. Foi quase um orgasmo. A viagem do presente me deu garantias de que eu vou conseguir realizar o que eu queria para hoje. E o futuro me deu algumas idéias que eu não tinha tido até então, e esperar para ficar velho é um desperdício. Vou iniciá-las de pronto. – atravessou então a porta rumo ao gélido Dezembro, e avistou de imediato uma mulher, que mesmo de longe e com roupas pesadas, denunciava ser bela, carnuda na medida certa e jovem. Ele então colocou sua cabeça para dentro da casa uma última vez antes de fechar a porta e, observando os fantasmas já irritados e tristonhos, sorriu com os cabelos negros lhe varrendo a face.
- Feliz Natal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário