quinta-feira, 10 de março de 2011

Epopeia.

Pois bem, o que se via ali não era algo ordinário, como a mais ordinária das batalhas; não, não mesmo. Era uma peleja em certo nível que se consideraria um épico. Se recebido o merecimento de ser contada em poemas e cantada em trovas, diria eu que se tornaria então uma epopéia.

Ao sul, o Kraken destruía o galeão Golden Hind, enquanto o dono do mesmo, o corsário Sir Francis Drake, lutava bravamente contra o demônio-marinho de oito braços para salvar sua tripulação; o grande O Pelicano que deu a volta ao mundo, cair nas mãos de um invertebrado qualquer? Não senhor!; e, não muito longe daquele embate, Mary Read e Anne Bonny trocavam ameaças verbais e golpes de espada, aqui e ali, tentando definir quem ficaria com o coração do grandioso Calico Jack. Observando a um canto, Bartholomew Roberts, que em breve seria aquele a tomar a mão de Mary Read para si. John Rackham, o Calico, se mantinha a poucos passos das duas, rindo-se gostosamente em ver-se tão apreciado por bravas damas.

Alheias à batalha e entoando um canto maldito, sentadas sobre algumas rochas que ascendiam do mar, as sereias se balançavam vagarosamente, embaladas pela sua própria voz encantadora. Alguns dos guerreiros que ali estavam até esqueciam-se de se preocupar com as mortes ao redor e perdiam a cabeça por darem às costas a seus inimigos, enquanto tentavam alcançar as sereias ou declarar seu amor por elas.

Sob o céu que chovia apenas em metade da batalha (a outra metade se encontrava ensolarada), os resquícios de Atlantis alcançavam a superfície; tendo sido destruída pelo navio Queen Anne’s Revenge e seu capitão Edward Teach, o Barba Negra, não lhe restou opção aos destroços que boiar e se fazer visível aos olhos comuns. Não sob espanto podia-se notar que o próprio Teach e sua tripulação também jaziam mortos acompanhando os destroços. E, na metade ensolarada, algumas figuras mítico-divinas observavam somente por observar.


O destaque deste apocalipse em alto mar era Sir Gregory DeMogorgon (que não era um Sir de verdade), o maior dos maiores, lutando pela sua vida e pela dos outros, com uma fúria de doze lobos, a força de dez leões e a velocidade de dois ou três guepardos. E não se deve imaginar que ele possuía um vasto corpo, nada disso. Era esguio, até. Sua face podia ser considerada amável, e seu sorriso, encantador. Sua barba fazia jus à Francis Tumblety, também mais conhecido como Jack, O Estripador. E poucas barbas fazem jus a tal!

Seus longos dedos empunhavam uma espada como poucos conseguiam, e sua lábia conquistava mais mulheres do que qualquer outro homem gostaria de admitir (provavelmente por que muitos da época já sabiam de histórias de suas esposas nas mãos de Gregory). Oras, possuindo tais memoráveis aptidões como guerreiro-galante, não demorou que seu nome alcançasse mais cantos do mundo que qualquer outro. Mas, antes que isso ocorresse, existiu certa história sobre Gregory, e a história se conta assim:


Certa vez, se vendo em terras distantes e desconhecidas, ao encontrar uma cidade de reino, Gregory se fez passar por “Sir Arthur Gregorian, Rei da Galifréia“; e, assim, conseguiu comer das melhores refeições, beber dos melhores líquidos e deitar com todas as mulheres que quis (afinal, a suposta rainha Dame Ignia Fran estava adoentava e não viajara com ele).

Uma noite qualquer, enquanto jantava no palácio em companhia dos que reinavam ali, outro homem surgiu no salão, dizendo ser o real Arthur Gregorian da Galifréia, e acusando Gregory DeMogorgon de ser um mero falsário. Tendo este segundo chegado acompanhado até mesmo da escolta real, não demorou até que o primeiro fosse perseguido pelas ruas e sido obrigado a correr por sua integridade física (algum tempo depois se descobriu que o segundo era também um falsário qualquer, que se valera de criatividade e de um grupo de árabes que conheceu, – e contratou por 10 dinares cada – que se encaminhavam de volta às suas terras, para se fingir de rei da Galifréia. Quando descoberto, foi também perseguido como falsário, e descobriu-se que Galifréia nunca existira. No fim, foi perdoado ou esquecido já que ninguém teve ânimo para perseguir por muito tempo um segundo enganador, pois ele só provara aos moradores daquele reino o quão imbecis eles eram. Como já diz o ditado: fanfarrão que engana falastrão, tem mil anos de perdão.)


E, na batalha épica situada sobre o mar, os homens iam morrendo pouco a pouco sob espadas; e nenhum deles ali tinha algum arrependimento. Nem Drake, enquanto perdia um braço para o monstro Kraken; muito menos Calico, que agora iniciava uma batalha elegante contra Bartholomew Roberts; nem mesmo os soldados da marinha que lutavam em desvantagem numérica; e, obviamente, Gregory DeMogorgon somente sorria frente ao perigo, mesmo sendo o único a lutar por si só e ter a todos como inimigo. Estampado na face de cada homem que lutava, um sorriso reluzia ao sol. Cada corpo tremia, mas não de medo, e sim de excitação; aquela animação perante a batalha, a excitação frente ao destino desconhecido da vitória ou derrota; a adrenalina.


Até em nós, homens comuns, a excitação da batalha que nunca acontece percorre o corpo. E quando ela acontece, preenche-nos com certo prazer que só surge frente à disputa pela superioridade. Instinto, talvez. Mas em nossos cérebros tentados a se tornarem machos-alfa, esquecemos se isto é instinto ou se é favorável ao comportamento humano atual. Simplesmente o que importa é correr atrás desse sentimento. Seja uma batalha verbal, seja uma batalha física, ou seja mesmo uma mera batalha visual, onde o outro olhará nos seus olhos e reconhecerá que ele errou, que tomou uma atitude idiota e que, ao menos naquele momento, ele foi inferior a você de algum modo.

Seja para tentar ganhar notoriedade ou amor; seja real ou meramente imaginada em sonhos ou qualquer tipo de pensamento; não importa, na verdade.


A única coisa a ser notada é que todo homem precisa – algum dia, por algum motivo, de alguma maneira – lutar.

2 comentários:

  1. Comecei por este, porque sou fã de epopéias..

    gostei do texto, a história é divertida Grue!

    Tem continuação?

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  2. Opa, valeu! Não tem continuação, apesar de eu ter algumas ideias para utilizar mais o Gregory DeMogorgon. Eventualmente as colocarei em prática e postarei.

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