sexta-feira, 11 de março de 2011

Presente Macabro.

Era uma noite de natal comum e, como em todas as outras de todos os anos, o Senhor D’Arville a passava sozinho. Já se fazia décadas desde a última vez em que ele teria comemorado de fato o natal. Ele mantinha-se sentado em sua poltrona frente á lareira, evitando de sofrer com o frio que cortava as ruas cobertas de neve e adentrava em sua casa, ignorando paredes de concreto, janelas de vidro e portas de madeira, colocando-o face a face com a força da natureza que lhe provava que nada construído por meros humanos poderia lhe derrotar, se assim não permitisse.

O dia chegava ao fim, a noite já se arrastava próximo à meia-noite, quando uma leve batida na porta anunciou um visitante inesperado. O Senhor D’Arville, no topo dos seus cinqüenta e cinco anos, levantou-se e foi em direção á porta, praguejando e xingando o tal infeliz que vinha perturbar-lhe a tal hora tardia. Ao abrir a porta ali estava em toda sua pomposa vestimenta para resistir a intenso frio, o carteiro. “Entrega especial de natal”, anunciou ele ao notar o ar de estranheza vindo do senhor à sua frente, provavelmente espantado por uma entrega tão tarde da noite. “Alguém se atrasou na hora do envio, mas estamos aqui para isso, Senhor”, completou o jovem carteiro, estendendo ao Senhor D’Arville a prancheta onde repousava o formulário de certificado de entrega onde ele deveria assinar e uma caneta de tinta preta na outra mão.


Sentado novamente em sua poltrona, Argus P. D’Arville – como havia sido escrito na caixa da entrega no campo destinado ao “destinatário” – abriu o presente sem muita animação. Não imaginava quem poderia ter-lhe enviado um presente. Os poucos amigos que fizera em toda sua vida já não mantinham mais contato com ele; sua esposa falecera há duas décadas, deixando-o viúvo e sem filhos; qualquer outra pessoa que mantivesse parentesco com ele também já não mantinha contato com o mesmo. Nesse rompante de lembranças mórbidas ele tentou lembrar o porquê de tanto afastamento e solidão, mas sua mente tornou isso um mistério obscuro demais para que ele conseguisse desvendar.

A caixa revelou duas pequenas peças douradas. Pequenas, esféricas. Brincos? Hesitou em tocá-los. Lembranças pipocavam em seu crânio. Sim, eram brincos. Suas mãos se moviam quase involuntariamente em direção a eles. Não deveria tocá-los. Lembrava de quem eram aqueles brincos. Não queria tocá-los. Suas mãos se aproximavam cada vez mais. Não deveria tocá-los. Não, não deveria. Suas mãos fecharam os dois brincos entre elas e então o mundo perdeu o sentido. O chão não era mais chão e o teto deixou de ser teto. Tampouco o teto havia se tornado chão e vice-versa. Eles haviam se tornado nada, sem forma, sem cor, sem cheiro, sem sabor, multicolorido, límpido, transparente e inexistente, tudo quase ao mesmo tempo, em intervalos de milésimos de segundos. Sentia-se girar e girar. Caiu da poltrona, contorcia-se no chão.

Em sua mente, D’Arville via-se atacado por lembranças, as piores de sua vida, todas que ele enterrou e se condicionou a esquecer. O episódio em que havia assassinado sua esposa, num rompante de raiva, ao descobrir que esta havia lhe traído; situação essa que remetia àquela em que havia espancado a sua primeira noiva, pelo mesmo motivo. Por que as mulheres faziam isto com ele? Não fora ele sempre fiel? Seus pensamentos surgiam e se perdiam no turbilhão de lembranças que tomavam seu lugar. Era então o motivo de ter se afastado de todos, não? Medo da traição, medo da raiva, medo das mãos rubras e inchadas e do gosto de sangue na boca. E eram estes brincos – essas pequenas peças pintadas com tinta barata que sua mulher guardava de lembrança da infância – que, por algum motivo, lhe eram importantes e ele não lembrava agora; estes mesmos que reavivavam sua memória para seus piores medos e pesadelos. Quem os havia enviado? Seja lá quem os tivesse enviado, teria feito com intenção de causar tudo isto nele? Ele não fazia idéia, estava perdido demais na própria mente pra saber.

Os pensamentos se foram e então se sentiu livre, ainda que preso à própria mente, entre paisagens estranhas. Estava num vasto deserto e via a areia de sua vida escorrer por entre os dedos. E sua mente assim estava no momento, um vazio e eterno deserto, livre de pensamentos...


Acordou deitado no chão que agora estava encharcado de suor e saliva. Tremia terrivelmente. Tentou se levantar, mas não conseguiu. Não tinha forças para tanto. Abriu as mãos e viu os brincos ainda entre elas. Pensou em jogá-los fora; tentou soltá-los no chão; quis enfiá-los no bolso. Todas as suas tentativas de manter as duas pequenas peças longe do contato direto com seu corpo foram inúteis. Sentou-se e logo se acalmou. As lembranças tinham ido embora, não tinham? Até forçando a mente, mal conseguia lembrar-se do rosto da mulher com quem fora casado por mais de uma década. Sentiu-se aliviado por alguns instantes antes que começasse novamente a tremer. Sua paz durou pouco, as lembranças retornavam rapidamente. Sentia que vinham com força igual à anterior, talvez pior. Sentiu um gosto amargo subindo-lhe à boca e vomitou. Tossia terrivelmente, parecia estar morrendo. Ele sabia que seu corpo não agüentaria novamente aquele peso; sua mente solitária, vazia, fria – quase doentia – retirava rapidamente suas forças com o peso da culpa. Sentia-se desfalecer e mesmo assim seus olhos mantinham-se hipnotizados, vidrados nas duas peças.

Não conseguia entender isso direito. Era o castigo pelos seus pecados passados? Como poderiam, tão facilmente, perturbações mentais afetarem um corpo saudável? Não queria aceitar, mas riu de si mesmo um pouco. Sabia que era possível. Não era a própria mente que tornava possível todas as funções do corpo? Sabia que era possível, sabia que podia até ser considerado algo comum. Corpo saudável com mente perturbada era igual a um corpo vazio, de nada servia. Sabia que não tinha como lutar contra o que sua mente estava fazendo.


Percebeu que não tinha mais tempo pra pensar nessas coisas quando o rosto de sua esposa tornou-se novamente visível em sua mente. Contorceu-se novamente e amaldiçoou aquele objeto místico em sua mão, que penetrara tão facilmente em sua mente e a manipulara de modo formidável. Não sentiu que restava opção e sabia que sua mente o mataria, não importando o que fizesse. A Morte já batia à sua porta, preparada para levá-lo por desgaste mental excessivo. Somente queria desgrudar a visão daquelas duas malditas peças o quanto antes, para se livrar da dor e do destino cruel. Só conseguiu pensar em um meio de fazer isto e o fez.


Alguns vizinhos forçaram a porta e invadiram a casa do Senhor D’Arville quando escutaram um grito gutural vindo do interior da mesma. Não demorou muito para que uma ambulância chegasse e o levasse para o hospital. Incrivelmente, seu estado inicial era animador, já que não mais apresentava qualquer risco de morte ao chegar ao hospital. Ninguém o visitou, o que tornava um mistério o envio do presente macabro.


Após um mês de internação – e após terem sido retirados dois pequenos brincos do estômago do Senhor D’Arville – ele faleceu. O laudo médico apresentava: intoxicação por chumbo.

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