quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Culpa

A porta escancarada da toalete revelava o que ocorria em seu interior. O piso molhado, traiçoeiramente escorregadio em cerâmica branca, continha também alguns respingos avermelhados, tom suave, pois misturados com água. Uma tesoura sobre a pia apresentava também manchas de um vermelho vinho. A banheira repleta de bolhas e espuma sepultava em si um corpo humanóide, belo, esguio e repleto de curvas, moreno, feminino... Talvez perfeito. Este corpo, este ser, ainda vivo se movia; e seus movimentos delicados e românticos produziam leves ondulações na superfície da água, ora afastando e estourando algumas bolhas, ora se perdendo por entre a grossa espuma de sabonetes aromáticos.

Vez ou outra uma extensa parte daquele corpo se punha afora do líquido, mostrando-se sedutoramente molhada, brilhando em ônix; e um par de mãos tratava de acariciá-lo, lavando-o e esfoliando-o com uma esponja já encharcada daquela mesma água e sabão. Pernas e pés, braços, punhos e mãos, ombros, pescoço e seios. Aquilo lhe dava prazer, sentir-se asseada e perfumada, ter aquele momento só para si, para cuidar de si mesma e de seu formoso corpo. Acostumara-se a transitar pelas ruas unicamente para atrair os mais diversos olhares, dos machos sedentos e das fêmeas invejosas. Era capaz de tornar insana a mais sã das mentes, quando esta embebia-se pelo desejo de possuir aquele corpo.

Mas há alguns anos tornou-se de um só. Não foi o primeiro, mas certamente seria o último, o homem de sua vida. Não casou-se, “amigou-se”. Nunca fez questão de festa, véu e grinalda, só fez de tê-lo. E ele a teria até o fim de sua vida.


A taça de vinho veio até sua mão e dela até sua boca. Seus lábios tocaram o líquido e o sorveram. No caminho de volta até o balcão da pia, mais alguns pingos fizeram o favor de se espalhar pelo chão e pelo próprio balcão marmóreo. Um rádio a pilhas tremia relutante na borda da banheira, ameaçando um desastre; e a melodia dele expelida preenchia o cômodo agressivamente, dado a seu volume.

O corpo dela mergulhou e lá ficou. A sensação era reconfortante; silêncio – ainda que pudesse ouvir o som do rádio –, paz e a água fria acariciando sua pele. Ascendeu à superfície e inspirou. Ele chegaria já, do trabalho; seu amado. Mergulhou uma segunda vez, permanecendo mais tempo que a vez anterior. Não haveria um quarto mergulho.

Deixara-lhe opções, caso se decidisse pelo mesmo. Uma tesoura enferrujada, veneno... Não haveria de reclamar. A toalha estava ao chão, curvando-se e dobrando-se em mil formas, formando um labirinto peludo; sobre ela, vários pertences, lembranças íntimas, de aniversários e comemorações daquele amor. Ele saíra àquela manhã, prometendo conversas e compensações e explicações. O que haveria para explicar? Nada. Ele entenderia a motivação. Mergulhou mais uma vez.


Estava tão errada assim? Seus familiares não a compreenderiam, seus amigos também não. E como poderiam? O rádio decidiu-se então e despencou, mas para o lado seco dentre suas opções, desligando-se com o impacto da queda. E ela pôde ouvir mesmo sob a água – ao menos acreditou veementemente nisso – quando a porta da frente fora aberta, e seria ele. Sorriu, e sangue preencheu a água. A mancha rubra preenchia a banheira com velocidade, enquanto seu corpo desfalecia.

Ele entraria no banheiro a qualquer instante, procurando-a. E ela, por que deveria ter agido diferente? Por que escolher outra opção? Se não podia mais fazê-lo sentir-se amado, ou suprido carnalmente, o faria sentir qualquer outra coisa que fosse. E se fosse para fazê-lo sentir algo, por que não culpa? E culpa seria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário