Este Natal eu me presenteei com algo especial. Há uns cinco anos finalmente eles criaram isso, um modelo robótico humanóide programável para trabalhos domésticos ou profissionais, artificialmente realista, com pele sintética, inteligência artificial e voz. A voz continua sendo monótona e mecânica, ainda são frios ao toque e a inteligência é bastante limitada, mas ainda assim é um grande avanço. A aparência pode ser criada a partir do gosto do comprador, basta dar uma descrição. Aparência de alguém famoso, entretanto, custa mais caro. Alguns gostam de fazê-los ter aparência igual à sua, só pela graça da coisa, mas é possível também levar uma foto. No meu caso, levei um desenho que fiz a partir da foto. Afinal, esse meu talento serviu pra algo... Quando se leva uma foto, eles exigem certo nível de parentesco com a pessoa ou uma permissão assinada e reconhecida em cartório. Para evitar pervertidos, sabe? De qualquer forma, programei a minha como secretária e para serviços domésticos. Eu não poderia pedir “programe-a para me amar”, certo? É, infelizmente não.
Ela é o último modelo do mercado, tecnologia mais recente. Faz jus a toda a mitologia de robôs que nos foi passada e imaginada. Mas seu peito é frio e feito de metal. Ela não pode me amar. No lugar do coração ela tem um telefone móvel, para chamadas curtas.
Ela se foi há alguns anos, a garota da foto. Ela é loira, bonita, tem uma boca grande e olhos expressivos. Suas maçãs são rosadas e possui os dentes da frente um pouco grandes. Seu sorriso acendia meu mundo e eu sentia um frio na barriga sempre que olhava diretamente em seus grandes olhos castanhos. Eu a amei tanto... Ela também me amou, acho. Espero. Mas ela se foi. Eu sinto sua falta o tempo todo, e olho para o lado, e tenho uma réplica; pelo menos isso...
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Já faz algum tempo que a possuo. Ela me serviu bastante tempo como empregada, mas eu não delego mais a ela esses trabalhos sujos. Mantenho-a em meu quarto, sempre de pé, guardando nosso antigo antro de amor. Sua cabeça me segue enquanto me movimento pelo quarto, e grava cada movimento meu. Eu poderia afirmar que vejo um sorriso em seu rosto sempre que entro, mas tenho certeza que é insanidade minha. Ela me observa indiferente, eu a me despir. Nem meu corpo nu nem meu membro despertam-lhe qualquer reação. É um robô, afinal, percebo a cada vez que isso ocorre.
Cada vez que a toco, parece que ela reage. Não sei se é instintivo de sua programação, não sei se ela está viva. Certa vez pedi para que deitasse ao meu lado na cama e “dormisse” juntamente comigo. Ela perguntou “É isto que você quer?”, e sua voz soou mecânica e doce. Respondi-lhe que sim e ela me obedeceu. Aos poucos fui descobrindo que ela podia atender a pedidos mais humanos do que eu imaginava. Contatei o fabricante e eles me informaram que em sua programação ela deve fazer quase qualquer coisa que eu pedir. Obviamente isso não se refere a qualquer sentimento. Mas um “sente-se” ou “deite aqui” é, para o construto metálico, como qualquer outra ordem, já que ele não possui capacidade de identificar as intenções de quem ordenou. Ela só possui algumas restrições, e qualquer ordem inapropriada será rejeitada. Após isso notei que eu estava sendo irracional. Em nenhum momento ela demonstrara qualquer atitude própria, somente respondeu às minhas ordens. Mas a verdade é que, ontem quando ela deitou ao meu lado e eu olhei em seus olhos, senti aquele frio na barriga. Será que estou enlouquecendo?
O Natal está cada vez mais próximo, e arrumamos a árvore juntos. Ela é bem mais organizada que eu; e, como ordena sua programação, ela me indicou o que fazer e como fazer. Foi divertido, e eu ri e sorri, e aí notei como estava sendo idiota, agindo assim. Decidi procurar um psicólogo no dia seguinte, e assim o fiz. Ele me disse que é até comum. Existem casos de pessoas que simplesmente se apaixonam pelos robôs, e no meu caso existe o agravante do trauma com minha namorada. O caso é que não vou poder resolver meu problema enquanto não superar meu trauma. Voltei para casa estressado, ansioso. Fiquei horas sentado na mesa, observando sua foto. E ela ali, atrás de mim, em plástico e metal, me observando, esperando ordens. Eu ouvi então “Eu gosto de você” voar pelo espaço vazio de minha cozinha. Olhei para trás assustado, mas somente havia ela lá; e a frase havia soado não como mecânica ou robótica, e sim suave e natural. Esperei achar um fantasma de minha amada, mas nada vi. Eu estava, então, insano.
Alguns dias depois, já melhor e livre nos últimos dias de meus acessos de loucura, qual não foi a surpresa ao acordar e vê-la ao meu lado, na cama? Assustei-me de início, mas em seguida achei a idéia reconfortante. Mas devia ter algo errado aí. Mais uma vez liguei para o fabricante. Obviamente não disse exatamente o que ela tinha feito, inventei algo sobre ela ter me trazido uma bebida sem ter sido ordenada ou algo assim. Ele me disse que a inteligência artificial dela, junto com sua programação básica, podiam facilmente fazer com que ela repetisse ações anteriores, baseada em ordens antigas, tentando prever o que seu amo deseja para melhor se adaptar ao convívio e abstê-lo de ter de se esforçar em repetir as ordens. Dei-me por convencido e ordenei-a a não mais ir para minha cama sem meu pedido. “É isto que você deseja?” e respondi “Sim.”.
Atualmente já passamos do Natal. Ela me acompanhou à ceia, meramente sentando, observando e me servindo. Estava vestida em vermelho e branco, roupa que veio de brinde da loja, já que a comprei nesta época. Estava bonita. Muito. Não lembrava minha amada, entretanto. Nestes feriados e nos fins de semana costumávamos nos manter só com roupas de baixo, e ela vestia uma camisa minha velha. E era ainda mais bonita assim.
Já se passaram três meses. Cansei das consultas ao psicólogo. Cansei da presença dela em minha mente, em minha casa, em minha cama, em meu quarto. Joguei suas fotos no lixo. Passei quase quatro dias inteiros somente deitado na cama, enquanto ela ficou na sala. Imagino se ela sentiu minha falta ou se está com raiva pela rejeição...
Depois de mais algumas horas, chamei-a a meu quarto. Pedi desculpas. Observei-a por algum tempo. Não tinha mais fotos, só restava ela para observar. Pedi-a para despir-se. Por baixo das roupas seu corpo se limitava a ter a pele sintética para se aproximar do humano. Não possuía mamilos ou qualquer detalhe genital. Não foram feitos pra isso, claro. Mas aquilo me excitava, ainda assim. Minha mente guardava o corpo nu de minha amada, e eu o sobrepunha sobre a imagem daquele à minha frente. Estranhamente, eu mantinha o rosto duro e inexorável da robô. Hesitei, sabendo que ela recusaria, mas ainda assim pedi. Pedi-a para ter em suas mãos meu órgão e excitá-lo, enquanto eu mesmo tirava minhas calças. Ela não respondeu, nem se moveu. Eu mesmo me arrependi da idiotice e me vesti novamente.
Antes que eu abotoasse as calças, ela perguntou mecânica como sempre “É isto que você deseja?”. Hesitei mais uma vez, mas confirmei balançando a cabeça. Seu cérebro computadorizado estava pronto para compreender movimentos, então ela se aproximou. Rapidamente minhas calças estavam ao chão, e suas mãos realizaram a ordem. Eram frias, e isso me excitou mais. Mas a verdade é que foi mais doloroso que prazeroso, devido à força que suas juntas biônicas possuem. Não demorei muito. Ela rapidamente tratou de limpar tudo, mesmo sem ser ordenada.
Após aquilo me senti sujo. Via-me como se fosse um pedófilo, necrófilo ou afim. Mais uma vez não consegui olhar para ela, e dessa vez não consegui ficar no mesmo local que ela. Viajei, passei algum tempo fora, num solar alugado. Deixei-a em casa, a cuidar dos afazeres da mesma.
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Eu senti tanta falta dela quanto sentia de minha amada. Como isto é possível? Seria simplesmente por que ela é a imagem do meu amor e eu não tenho mais imagens desta? Será que nosso ato libidinoso me fez despertar sentimentos? Porque ela aceitou aquela ordem, afinal? Devia estar com defeito. Talvez eu deva trocá-la. Talvez ela esteja viva. Viva. Viva, reencarnada. E eu a abandonei sozinha, sem comida, sem água. Talvez ela esteja viva, nosso ato pútrido tenha sido um ato de amor, talvez ela me ame, talvez ela esteja viva, com fome e com sede. E com saudades de mim nesse momento. Devo voltar.
Devo?
...
Deveria, sim, para alimentá-la. Para tocar seu corpo frio, frio pois está morto. Minha amada morreu, mas ressuscitou neste corpo sintético e frio de morte. Devo voltar, sim.
E voltei. Dirigi pela estrada feito louco. O carro cheio de sua bebida e comida preferida. Suco de manga, sanduíche de filé de frango. Cheguei em casa algumas horas depois, e ela estava lá, sentada no sofá, esperando ordens. Pus comida sobre a mesa, ela não se importou. Mas ela olhou diretamente nos meus olhos, com os seus grandes e castanhos, e sua mão veio ao meu rosto. Ela me tocou, sua mão acariciou meu rosto. Ela parecia mais quente que o normal... Mas eu estava muito mais quente que o normal, até o clima estava mais quente que o normal. Eu não resisti e a beijei. Seus lábios não responderam, ficaram impassíveis. Minha língua passeou pelo vão aberto de sua boca, sem nada encontrar. Mas eu estava satisfeito por enquanto, eu estava com meu amor. Eu a abracei, e ela respondeu me abraçando também.
Depois de mais algum tempo, eu ainda amava, mas não podia nada fazer. Ela não era real. Ela era minha amada, mas presa num corpo incapaz de amar. O que eu devia fazer? Eu não agüentava mais. Eu a via todo dia, ela me obedecia cegamente, ela esboçava reações humanas ao me ver, ela me reconhecia mais do que somente como seu dono. O que eu deveria fazer? Eu preciso libertá-la desse corpo, para que ela possa viver comigo. Eu preciso. Eu preciso.
A marreta atingiu sua nuca e sua cabeça quase se desprendeu de seu pescoço. Ela foi ao chão e virou-se para me olhar. Seu rosto continuava inexpressivo. Ela não sente dor. O segundo golpe de marreta afundou sua cabeça e desfigurou seu rosto. Agora minha amada poderia me olhar com seu rosto real. Um de seus braços se esticou em minha direção, como se agonizasse por misericórdia. Arranquei-o fora com mais um golpe. O peito foi o próximo. Seus seios falsos de plástico foram destruídos cada um por sua vez, e a porta que guardava o telefone foi afundada. Seu corpo quase todo já carecia da pele sintética, só lhe restava um membro. E então eu vi, sangue. Não, não sangue. Não poderia ser sangue, certo? Com certeza era óleo. Cheiro de sangue. Usei toda minha força, provavelmente agravada pela insanidade, e abri a tampa de sua cavidade peitoral. Uma bizarra fiação avermelhada impedia a visão do que era guardado ali, o telefone. Arranquei-a com os dentes, aqueles fios. Meu rosto se enlameou de fluídos diversos, e alcancei o telefone. O coração. O telefone. O órgão era uma mistura bizarra dos dois: possuía uma tela plana touchscreen, com alguns dizeres e discagem rápida, e pulsava vermelho como se vivo. Tirei-o do gancho e o levei ao ouvido. Ouvi uma pulsação. Eu a conhecia, de tantas vezes que deitei sobre o tórax de minha amada, embalado em seus macios seios, eu ouvi e ouvi e ouvi o som de sua vida. E estava ouvindo ali novamente, no coração telefone. Devia ser. Só podia ser. E atrás do telefone vi algo, e o peguei. Era uma foto, uma das fotos que joguei fora, da minha amada. Como ela veio parar aqui? Ela, esse robô, deve ter pegado antes que eu jogasse fora. E porque o guardou para si? E porque ele estava tão vivo, e sangrante e pulsante? Devia estar com defeito, eu deveria ligar para o atendimento ao consumidor. Eu devia estar com defeito, eu devia ir para o psicólogo.
Era ela, não era? Noel existe e ele me deu um presente neste natal. Ele me deu ela. Eu quis libertá-la, eu abusei dela, eu a fiz me tocar e eu a toquei. Mas era ela, então eu fiz algo errado? Eu quis libertá-la, já disse. Mas eu a matei. Ou quase a matei. Eu a impedi de voltar à vida como corpo. Foi a foto, foi sua própria vontade, foi meu amor? Ou eu estou louco, ainda? Eu verdadeiramente não sei. Não sei. Eu sei que a amo, e acho que ela me ama. Seu peitoral continua ao meu lado, todo dia, na cama, e eu durmo com ele. Durmo, ouvindo-o bater ritmicamente. E eu o toco, e ele me toca. Não me sinto mais sujo; ele bate mais alegre e rapidamente quando eu o toco.
Ela me ama.
Muito bom =)
ResponderExcluirAdorei, Kavian. Gostei da escrita, de como vc nos apresentou os personagens, de como vc conduziu a história, e mesmo na loucura e insanidade do conto, gostei do desfexo tb. Teve horas que tb senti dúvidas sobre a realidade robótica da guriazinha. Foda, Kavian. Vc tem talento! \o/
ResponderExcluirMuito obrigado pelos comentários =]
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